Portugal

Neste concelho há quem vote pela primeira vez aos 38 anos

Notícias de Coimbra com Lusa | 1 hora atrás em 18-01-2026

O concelho mais abstencionista do país nas presidenciais de 2021, Vila Franca do Campo, nos Açores, não regista no ato eleitoral de hoje o desinteresse da população, havendo mesmo quem vote pela primeira vez aos 38 anos.

“É a primeira vez que voto. Sou nascido e criado em Vila Franca, mas nunca tinha votado. Desta vez votei, porque a atual situação é diferente daquela que acontecia nos atos eleitorais anteriores”, disse à agência Lusa João Vieira, que votou hoje pela primeira vez, na Escola EB/JI Professor António dos Santos Botelho.

De cabelo louro comprido e vestido com roupa desportiva, João contou que o ato de votar foi “transparente”: “Votei com a certeza de que estou de consciência certa e a fazer o que é preciso”.

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Numa manhã marcada por uma temperatura agradável (18 graus), pelo sol que espreitava de vez em quando por entre as nuvens e por alguma chuva miudinha, António Fanfa de 30 anos, não ficou em casa e voltou a votar.

“Só não votei em 2021 por causa do Covid-19. Voto sempre. É importante votar porque temos de decidir quem vai gerir o nosso país”, justificou.

Questionado pela indiferença manifestada por muitos jovens, reconheceu que “existe distanciamento”, mas “é importante que não fiquem em casa”.

Quem não votou desta vez na escola primária Santos Botelho, foi Raquel Amaral, de 30 anos, que se mudou para a ilha Terceira.

Em 2021, aos 25 anos, disse à Lusa acreditar que toda a gente deveria exercer o seu “direito e dever” de voto, incluindo os jovens.

Hoje, contactada por telefone, disse que iria votar a seguir ao almoço e reafirmou que os mais novos “deviam votar, porque estão um bocado desinteressados pela política”, quando “têm toda a informação disponível nas redes sociais”.

Hoje, dia de eleições presidenciais, a Escola EB/JI Professor António dos Santos Botelho, situada no centro da vila, de onde se vê o mar ao fundo da rua, acolhe três secções de voto da Freguesia de São Miguel, com 2.675 inscritos.

O concelho de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, que, há cinco anos, em plena pandemia, registou a maior taxa de abstenção do país (70,4%), teve, durante a manhã, nestas três secções de voto, uma afluência maior do que o habitual.

“Comparativamente com 2021 a afluência é maior. As pessoas costumavam vir antes e depois da missa, mas hoje têm vindo com mais continuidade e sem grandes momentos de pausa. Acredito que, pela maior variedade de candidatos, as pessoas possam sentir-se mais representadas”, disse, pelas 11:00 locais (mais uma hora em Lisboa) o presidente da secção de voto n.º 2, Vítor dos Santos.

No ato eleitoral de há cinco anos “as pessoas tinham muito medo de votar por causa da pandemia” e este ano “há muitos cartazes” na rua com os candidatos, o que não acontecia anteriormente.

Pelas 11:45 locais, o responsável indicou que nas três mesas de voto tinham votado 294 pessoas. Em 2021, pela mesma hora, eram contabilizadas cerca de 200.

Na entrada para as mesas de voto, que é feita num dos acessos laterais do edifício, a Lusa contactou vários eleitores que se mostraram preocupados com a abstenção registada em atos eleitorais anteriores, mas confiantes que a situação poderá mudar desta vez.

“Eu sempre votei, não tenho contribuído para a abstenção. Hoje, talvez esteja mais gente a votar, possivelmente pela situação atual, porque tem de haver uma mudança no país, porque estando sempre os mesmos [no poder] é complicado”, atirou Emanuel Correia, de 56 anos.

Já Madalena Soares, de 80 anos, que interrompeu a conversa com uma amiga no passeio em frente da escola primária – onde trabalhou toda a vida -, para falar para a reportagem da Lusa, disse que também votou sempre, mas lamenta que haja quem pense que “os outros é que devem votar”.

“As pessoas não devem ficar em casa”, vincou, enquanto justificava que a taxa abstencionista nas últimas presidenciais pode ser justificada por, durante a campanha eleitoral, “os candidatos esquecerem os Açores”.

“Parece que os açorianos são portugueses de segunda classe. Os candidatos [presidenciais] nunca aqui vêm durante a campanha. Só vêm na pré-campanha e nunca passam de Ponta Delgada. Isso pode contribuir para afastar as pessoas”, disse, para justificar a abstenção que caracteriza Vila Franca do Campo.

Ao seu lado, a amiga Natércia Soares, de 57 anos, concordava com o desabafo de Madalena e acrescentava que “as pessoas dizem que os políticos não lhes dão pão”.

“Talvez se também houvesse campanha em São Miguel, as pessoas pudessem mudar de opinião”, atirou a mulher residente naquela vila a sul de São Miguel, que foi a primeira capital da ilha, que é conhecida pelas famosas queijadas batizadas com o nome do concelho e pela existência de um ilhéu que é uma das atrações turísticas locais.

Ao longo da rua de acesso à escola viram-se durante a manhã grupos de pessoas que ali se deslocavam para votar e algumas levavam crianças consigo, como foi o caso de Maria Botelho, de 66 anos, que votou noutro local, mas acompanhou o filho e conduzia pela mão as duas netas gémeas, de 5 anos.

“Eu tenho estado a explicar-lhes tudo sobre as eleições, porque é importante que elas percebam do que se trata para, mais tarde, exercerem o seu direito”, explicou.

Quem se dirigiu sozinho ao local foi José Tavares, de 84 anos, que foi prevenido de guarda-chuva, pois ao sair de casa reparou que “o tempo estava pingando”.

José não teve necessidade de abrir o guarda-chuva, mas, apesar se estar adoentado, garantiu que foi votar porque “é um dever e ninguém deve ficar em casa”.

Já João Teixeira, de 74 anos, ex-emigrante em França, garantiu que votou hoje, mas não volta a fazê-lo: “Não volto a votar, porque é sempre a mesma coisa. Nós votamos e eles [políticos] brincam com a gente. Estou cansado”.

Vila Franca do Campo é composta pelas freguesias Água de Alto, Ponta Garça, Ribeira das Tainhas, Ribeira Seca, São Miguel e São Pedro, tendo 10.322 habitantes (Pordata, 2023).

Nas eleições presidenciais de 2021, em território nacional, continente e ilhas, a abstenção cifrou-se em 54,46%.

Nos Açores situam-se os quatro concelhos mais abstencionistas do país – Vila Franca do Campo (70,4%), Ribeira Grande (68,7%), Lagoa (67,7%), Vila do Porto (67,2%). O primeiro concelho do continente, o quinto na lista, é Melgaço (66,2%).

Um estudo realizado em 2019 pelo Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais – Universidade dos Açores (CICS.UAc) apontava, além de questões administrativas, o nível de escolaridade e a exclusão da participação política como razões para justificar os níveis de abstenção no arquipélago.

A investigação, coordenada por Álvaro Borralho e encomendada pela Assembleia Legislativa dos Açores, defendia que a “melhoria da escolaridade contribui para a proximidade dos cidadãos com a política” e que não existe participação eleitoral “se não houver motivos de interesse político”.

Mais de 11 milhões de eleitores são chamados hoje a escolher o novo Presidente da República, que irá suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, que atingiu o limite de mandatos, sendo 11 os candidatos aceites, um número recorde.

Se um dos candidatos obtiver mais de metade dos votos validamente expressos será eleito já hoje chefe de Estado. Caso contrário, haverá uma segunda volta, em 08 de fevereiro, com os dois mais votados no sufrágio.

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