Opinião

Dói

OPINIÃO | Angel Machado | 27 minutos atrás em 20-01-2026

Os que pensam e os que choram não caminham do mesmo lado. A vida tem sido este levante contínuo: remendar o descontentamento e, tantas vezes, carregar no botão do “tanto faz”. Pensar, porém, tem um preço.

O pensamento é um mecanismo de reunião das ideias; a crítica, o seu eixo. Sem ela, a realidade dilui-se, distorce-se. Falta-nos sempre mais do que aquilo que temos — talvez porque a insatisfação caminhe atrás dos desejos, fiel e silenciosa.

Quem tem casa, saúde, comida e trabalho ignora o peso exacto dessas palavras para quem não tem nenhuma, ou apenas uma. Esse é o ponto. Não há tempo para o outro, para o menos favorecido, embora o outro desconheça a minha própria infelicidade, construída sobre aquilo que possuo.

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Fizemos da insatisfação a engrenagem do egoísmo, da fraqueza e da ambição. O barco afunda-se, mas pouco importa, mesmo que nos leve com ele. Neste capital pobre de símbolos, trocam-se vantagens por um possível “sim, senhor”. Sou cúmplice e falta-me a força para romper a ordem.

Ou pertenço ao “tanto faz” ou sou eu mesma o botão que trava promessas nunca formuladas. Choramos à beira do abismo, presos a um único horizonte: o umbigo. Sofrem os sofredores, morrem os fiéis aos seus princípios, as guerras prosseguem — e está tudo bem, desde que não seja à minha porta, desde que não matem os meus.

O amor não deveria ser alternativo, mas destino.

A ferida dói aos olhos. Não prometo redenção: apenas a certeza de fazer da insatisfação uma ferida maior.

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