O plano de recuperação da Loja do Gato Preto, empresa de retalho de artigos para o lar, foi aprovado em 02 de março “por todas as classes de credores”, disse à agência Lusa o administrador judicial provisório, Jorge Calvete.
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O plano aprovado, no âmbito de um Processo Especial de Revitalização (PER), prevê uma “aposta no canal online”, a “redução substancial do número de lojas físicas”, das atuais 15 para cinco lojas em Portugal, o despedimento de trabalhadores e um corte de 80% na dívida, com os bancos e fornecedores a aceitarem perdas de 18 milhões de euros.
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Em Espanha, onde a marca Gato Preto está presente, as cinco lojas existentes serão encerradas.
Segundo o plano de recuperação, que a Lusa consultou, serão dispensados os trabalhadores das lojas encerradas, em número não especificado, e mais oito a onze funcionários na sede e no armazém. Atualmente, a empresa tem 153 trabalhadores.
As cinco lojas físicas que vão permanecer abertas situam-se no Almada Fórum, Mar Shopping (Matosinhos), Freeport Alcochete, Ubbo Amadora e Palácio do Gelo (Viseu).
Foram encerradas ou vão encerrar as lojas das Amoreiras e Colombo em Lisboa, Oeiras Parque, Norte Shopping em Matosinhos, Montijo, Arena Shopping em Torres Vedras, Arrábida Shopping em Gaia, Alegro Sintra, Alegro Setúbal e Mondego Retail Park em Coimbra.
Os custos do fecho ascendem a 215 mil euros e as indemnizações aos trabalhadores a cerca de 900 mil euros.
A recuperação da situação financeira do Gato Preto assenta no perdão de 80% do capital em dívida, avaliado em 49,5 milhões de euros, e no perdão total de juros vencidos e vincendos.
O Aquinos Group SGPS, proprietário da empresa, que detém cerca de 52,2% dos créditos (25,8 milhões de euros), vai perdoar a totalidade da dívida.
Além do acionista, o maiores credores são os bancos, com 24,7% dos créditos (12,2 milhões de euros), seguidos pelos fornecedores com 20% (9,8 milhões de euros) e trabalhadores, com 3,2% (1,6 milhões de euros).
Por classe de credores, o plano garante aos trabalhadores e ex-trabalhadores o pagamento dos créditos laborais de 1,6 milhões de euros em nove prestações mensais, sem juros, a partir do quatro mês posterior ao trânsito em julgado da sentença homologatória do tribunal.
Já as indemnizações dos trabalhadores despedidos, avaliadas em 900 mil euros, e os custos de encerramento das lojas serão suportados pela receita da venda de um armazém na Quinta de Lavi, em Sintra, estimada em 1,2 milhões de euros, a realizar “no prazo máximo de 12 meses”.
Os bancos, que só vão recuperar 2,4 milhões dos 12,2 milhões em dívida, e os fornecedores, que recuperam dois milhões dos 9,8 milhões em dívida, serão ressarcidos em 60 prestações mensais, com início a partir do 13.º mês posterior ao trânsito em julgado da sentença.
Os bancos credores do Gato Preto são o BBVA (2,5 milhões de euros), Novobanco (1,9 milhões de euros), BPI (1,9 milhões), Caixa Geral de Depósitos (1,5 milhões) e BCP (1,2 milhões).
O capital social da empresa vai ainda ser reduzido de 19,5 milhões de euros para 50 mil euros, “para cobertura de resultados transitados negativos” da empresa.
Para 2026 e 2027, está previsto um volume de vendas de 9,2 milhões de euros e 10,5 milhões de euros, respetivamente, com cerca de metade da receita a realizar através do canal online.
“O encerramento destas lojas permitirá à empresa reduzir significativamente a sua estrutura operacional, resultando numa melhor otimização de custos com rendas, armazenamento e logística, com impacto direto na sustentabilidade financeira e na eficiência operacional do negócio”, sustenta o documento.
A cadeia de lojas de decoração fechou 2025 com prejuízos de 11 milhões de euros e viu as vendas caírem de 40 milhões de euros para menos de 20 milhões nos últimos cinco exercícios.
As dificuldades acentuaram-se com o encerramento de lojas físicas e a quebra nas receitas causada pela pandemia, e com a entrada massiva de produtos asiáticos através das plataformas digitais “com menor preço e qualidade inferior”.
Eventos extraordinários como o encalhe do navio Ever Given, que interrompeu a navegação no Canal do Suez em março de 2021, conduziu a “um aumento substancial dos custos de transporte e provocou ruturas no fornecimento de produtos sazonais essenciais para o ‘core business’ da empresa”.
A retenção, por três dos maiores transitários da empresa de cerca de 17 contentores de mercadoria, no valor de 1,5 milhões de euros, também comprometeram “o regular abastecimento de produtos”, indica o plano.
A consultora EY chegou a procurar potenciais investidores para a Loja do Gato Preto, através da entrada no capital da empresa ou da sua venda, mas a falta de resultados levou o grupo Aquinos a apresentar um PER junto do Juízo de Comércio do Tribunal Judicial de Lisboa Oeste – Sintra.
O tribunal deverá deliberar sobre a homologação do plano no prazo de dez dias.
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