Portugal

Só existe em Portugal e corre perigo de extinção

Notícias de Coimbra com Lusa | 2 horas atrás em 06-03-2026

 O maior peixinho-de-prata da Europa, Ásia e Norte de África é uma relíquia que só existe nas grutas do Algarve e foi estudado por Ana Sofia Reboleira, que alerta para o risco de extinção desta espécie.

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Denominada ‘Squamatinia algharbica’, a espécie, cujo DNA foi sequenciado por uma equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, “é um icónico troglóbio gigante, uma relíquia biológica”, disse à agência Lusa a bióloga Ana Sofia Reboleira.

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A espécie tinha sido descoberta em 2008 e descrita pela bióloga em 2012 como endémica das grutas do Barrocal Algarvio, mas os novos dados estenderam a sua distribuição de quatro para oito grutas.

A sequência de ADN “confirmou ser um animal sem parentes próximos, com uma posição isolada dentro da família a que pertence, destacando-se como uma relíquia biológica de elevado valor conservacionista”.

Podendo atingir 26,4 mm de comprimento corporal “é um caso de gigantismo, muito maior que os seus parentes próximos” o que, segundo a bióloga, o coloca na posição de “maior inseto terrestre adaptado a cavernas da Europa e o maior peixe-prata da região Paleártica, que inclui toda a Europa, Ásia e Norte de África”.

É “um animal extraordinário do ponto de vista estético, completamente adaptado à vida subterrânea”, ou seja, “não tem olhos, não tem pigmento, tem uma grande parafernália de órgãos sensoriais (como pelos e poros), um alargamento extraordinário dos apêndices (patas, cercos e antenas) e tem o corpo totalmente coberto de escamas, que nos insetos correspondem a pelos modificados, que se expandem”.

Esta espécie “sobreviveu até aos dias de hoje refugiada no meio subterrâneo”, no Barrocal Algarvio, em oito grutas entre Portimão e Tavira.

Uma área que “enfrenta graves ameaças à biodiversidade cavernícola, como a poluição, a sobre-exploração das águas subterrâneas, as alterações no uso do solo à superfície, urbanismo, agricultura intensiva e a aridez”, o que contribuiu para a classificação do peixinho-de-prata como em perigo de extinção, na Lista Vermelha de Invertebrados de Portugal.

No estudo coordenado por Sofia Reboleira e Octávio Paulo, publicado na quarta-feira na revista científica “Biodiversity Data Journal” (https://bdj.pensoft.net/article/171822/list/9/), os cientistas fazem “um levantamento exaustivo das ameaças à sobrevivência” desta espécie “que está completamente dependente da conservação do seu habitat” subterrâneo, mas no qual “tudo aquilo que se faz à superfície tem um impacto direto”, disse Sofia Reboleira.

Embora não se saiba ainda muito sobre a biologia destes animais, ciclo reprodutivo e tempo médio de vida, “os peixinhos de prata têm uma posição relativamente basal na cadeia alimentar de outras espécies endémicas e um papel de reciclagem de matéria orgânica, contribuem para os ciclos biogeoquímicos” do planeta, vincou a bióloga, alertando que sem estes, não haverá “ecossistemas de qualidade”.

Segundo Sofia Reboleira, “a proteção desta espécie e dos locais onde ela habita pode funcionar como um guarda-chuva para a proteção das outras espécies que também habitam nestes locais e muitas delas são endémicas”, pelo que “a conservação desta espécie é chave para a conservação da fauna subterrânea do Algarve, um património natural exclusivamente português”.

A gruta de Vale Telheiro, em Loulé, onde foi descoberta esta espécie, em 2008, foi em janeiro classificada como o Monumento Natural Local e é agora uma área protegida.

“Um passo sólido para garantir a conservação destes organismos”, mas, advertiu a bióloga, “é apenas um local”, sendo necessárias “políticas públicas que estendam esta proteção aos outros locais”.

A investigação foi coordenada pelo grupo de Ecologia Subterrânea do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, financiada pelo Prémio Belmiro de Azevedo-FCT e pela Cátedra em Sustentabilidade de Ecossistemas Subterrâneos – Loulé.

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