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Zeca e Adriano ajudaram a renovar a canção portuguesa antes da revolução

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José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília foram nomes da “nova canção” portuguesa, mas a renovação anterior à Revolução de Abril contou com dezenas de outros artistas, muitos já esquecidos, afirmou o investigador João Carlos Callixto.

Investigador e colecionador, João Carlos Callixto reuniu mais de cem artistas, que inscreveram o nome num movimento de renovação da canção portuguesa, entre 1960 e 1974, e criou um dicionário a editar em maio pela Âncora Editora.

“Nova canção portuguesa (1960-1974)” é um guia enciclopédico, como explicou o investigador à agência Lusa.

A obra reúne, pela primeira vez, de forma quase exaustiva, informações biográficas e discográficas sobre grande parte dos artistas que editaram canções originais – nem que fosse num EP – até à Revolução de Abril de 1974.

“É fixar uma memória”, afirmou João Carlos Callixto, porque muitos dos discos editados desde 1960 não estão disponíveis no mercado, são desconhecidos para a maioria dos portugueses e a informação sobre eles está, muitas vezes, dispersa ou errada.

Para este livro, o documentarista deixou de fora o fado, o pop e o rock que se fizeram naquela época, e cingiu-se ao que se designa como “nova canção portuguesa”, balizando-a entre “Balada do outono” (1960), de José Afonso, e “E depois do adeus” (1974), de Paulo de Carvalho.

A obra traça um “percurso da nova canção portuguesa antes de abril, de forma a que se possa compreender, de forma cabal, como se chegou a todo o percurso musical posterior”, escreve o autor na introdução.

São 15 anos que incluem gravações de músicos que estiveram no exílio, que foram influenciados pela canção de Coimbra, pelo cancioneiro popular português, pela “folk” estrangeira, que tiveram sucesso na televisão, que foram censurados, mas que participaram na renovação musical, tanto nas letras como na música.

João Carlos Callixto explica que “um dos traços em comum entre estas pessoas era o facto de cantarem as suas próprias composições, o seu repertório”, e nele refletiu-se a atualidade, ainda que as alusões fossem “mais líricas do que explícitas”: o regime de Salazar, a guerra colonial, o desejo de mudança.

“A primeira leva de cantores despertos politicamente – a canção de protesto – Zeca [Afonso], em 1960, Adriano [Correia de Oliveira] e o terceiro nome surge do estrangeiro, Luís Cília – são os primeiros nomes que começam a espalhar algumas sementes de contestação”, afirmou.

São canções que falam de fraternidade, de solidariedade, de repressão, de liberdade, e nota-se “um sentimento muito de contestação ao regime”, considerou Callixto.

A par daqueles três nomes, o dicionário apresenta toda a discografia – entre 1960 e 1974 – de músicos e compositores que são ainda hoje referências, e conhecidos de grande parte do público português, como Sérgio Godinho, José Mário Branco, Paulo de Carvalho, Jorge Palma e Fausto Bordalo Dias.

Há ainda Amélia Muge (a solo e com a irmã Teresa Muge), Tonicha, Manuel Freire, Francisco Fanhais, Carlos Mendes, José Jorge Letria e José Barata Moura, mas também nomes que são hoje menos conhecidos ou cuja ligação à música foi esquecida, como Teresa Paula Brito, o deputado José Lello, o médico Vieira da Silva, Os Camaradas ou o Duo Orpheu.

Entre todos estes artistas referidos no dicionário, João Carlos Callixto considera José Afonso “o músico completíssimo”, com “gerações e gerações a cantarem” o seu repertório, mas Luís Cília destaca-se por ter “uma carreira das mais longas e das mais consistentes da música em Portugal”, e praticamente não existirem discos seus nas lojas.

João Carlos Callixto demorou quatro anos a fazer este livro que sai agora, por coincidência, nos 40 anos da Revolução de Abril de 1974.

O investigador é otimista ao dizer que atualmente “há um interesse grande” de músicos mais novos em se “abeirarem deste património”, de o conhecerem, mesmo que a qualidade seja desequilibrada. A música que se fez nos anos 1960 e 1970 “não era só canção de protesto, nem o repertório dos cantautores era todo bom – também tinha coisas más – nem era só a canção ligeira que era má”.

Mas “tinha cantores extraordinários” e estão reunidos neste dicionário.

 

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