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“Vozes Falam Por Trás Das Grades”. Reclusos contam “verdadeira história” no primeiro livro escrito numa prisão em Cabo Verde
Imagem: DR
Quarenta e sete reclusos da cadeia central da capital cabo-verdiana contam “a verdadeira história” no primeiro livro escrito numa prisão em Cabo Verde, iniciativa que juntou contos e reflexões e despertou, em alguns, desejo de se tornarem escritores.
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“Foi uma surpresa para nós reclusos. Encarámos isso com confiança e naturalidade e acreditamos que éramos capazes de dar o nosso contributo de uma forma positiva”, disse à Lusa Nickson Tavares, 34 anos, no pátio da prisão, onde cumpre nove anos de reclusão e está a poucos meses de sair.
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A obra, intitulada “Vozes Falam Por Trás Das Grades”, reúne textos produzidos no âmbito de um projeto que pretende dar voz às pessoas privadas de liberdade e promover a sua reintegração social.
Nickson decidiu escrever sobre o seu último dia em liberdade, um momento que descreve como o mais marcante da sua vida.
“Resumi um bocado dos crimes que cometi e que me fizeram estar cá. Foi o dia mais marcante porque a última conversa que tive com a minha família”, explica.
A escrita tornou-se um processo de reflexão e libertação emocional para o recluso.
“Este projeto mudou muito a minha forma de encarar a vida. Hoje sou capaz de expressar através da escrita. Foi como uma semente plantada em mim que hoje está a dar frutos, porque já tenho dez títulos de livros e três já estão prontos”, afirma, acrescentando que pretende publicar as obras quando sair em liberdade.
O impacto do projeto chegou também à família.
A reação da mãe foi um dos momentos mais marcantes.
“Ela chegou a chorar e disse-me que hoje sente algo por mim que há muito tempo não sentia, que sente orgulho de mim”, conta, apontando que o seu desejo é ser “escritor e reconhecido internacionalmente”.
Entre os participantes está também a portuguesa Ana Rita Lopes, 45 anos, que cumpre três anos de prisão e relata uma vida marcada por episódios de violência e mudanças de percurso.
“Quando me falaram do projeto onde nós podíamos finalmente contar a nossa história sem filtros, eu achei importante, porque normalmente a sociedade condena-nos, rotula-nos. Então eu decidi participar porque podia dar o meu relato, tal como a moeda tem duas faces. A primeira face já tinha aparecido, que é a que aparece no Facebook e na televisão, e eu finalmente ia ter a oportunidade de contar a história por trás das grades, que é a verdadeira história”, disse.
A reclusa considera a participação “a experiência mais enriquecedora e de maiores aprendizagens” da sua vida.
“Cresci numa família com berço quase de ouro e conhecendo as más pessoas, acabei por entrar em caminhos que me eram desconhecidos, mas que eu quis entrar”, conta, relatando episódios de violência, perseguições e fuga com os filhos.
Licenciada em Letras, afirma que sempre sonhava escrever um livro e a prisão acabou por lhe proporcionar essa oportunidade, tendo já uma obra própria pronta para publicar.
“Hoje posso morrer feliz. O livro chama-se ‘Uma Mulher Presa em São Martinho’, com 155 páginas”, disse.
Cleiton Costa, 33 anos, cumpre pena há seis anos e refere que o processo da escrita o levou a revisitar o passado.
“Estive envolvido com droga, com bebida. Não foi fácil. Mas agora eu quero mudar porque escrevo todos os dias”, disse, relatando que aprendeu a ler e escrever na prisão e vai continuar após sair em liberdade com projetos ligados ao seu bairro e às crianças.
Michel Veiga, 32 anos, refere que a motivação foi contar a sua própria história.
“Eu fazia letras de música, mas um livro nunca”, refere, realçando que a participação abriu novas perspetivas para continuar a escrever.
A coordenadora do projeto, Lena Marçal, explica que a iniciativa começou em 2021 e envolveu 47 participantes.
“Muitos não têm apoio dos pais, outros perderam-nos cedo, ficam ao cuidado de avós ou tios e acabam por entrar em percursos de crime”, revela, acrescentando que a iniciativa permitiu mais convivência entre os participantes na cadeia e contribui para a sua reinserção social.
Lena Marçal defende ainda a expansão do projeto a outras ilhas.
“A literatura e a escrita são uma arma muito poderosa e transformadora do ser humano”, conclui.
O diretor-geral dos Serviços Prisionais e de Reinserção Social, Odair Pedro, destaca no livro que se trata da primeira vez que reclusos registam em obra as suas trajetórias dentro e fora do sistema prisional.
Segundo o responsável, o conteúdo poderá também contribuir para a definição de políticas públicas no setor e para a prevenção da criminalidade.
Cabo Verde tem uma população prisional de cerca de 2.000 reclusos, sendo que a taxa de reincidência criminal é de 25%.
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