Coimbra
Vive em Coimbra, mas o coração está na Venezuela: “Tenho família ao lado de bases militares”
A milhares de quilómetros de Caracas, em Coimbra, a preocupação é constante. Na Pastelaria Tropical, na Quinta D. João, Edite Reis acompanha com apreensão os últimos acontecimentos na Venezuela, país onde viveu durante 28 anos e onde ainda tem familiares, alguns deles a residir perto de bases militares.
“A situação é muito grave. Estamos com medo por eles e pelo povo”, afirma a gerente do espaço, visivelmente emocionada.
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Edite emigrou da zona de Aveiro para a Venezuela com apenas 16 anos. Foi lá que constituiu família, casou, teve dois filhos e construiu um negócio na área da restauração. Durante décadas, aquele foi o seu país. “Terminei de crescer lá. Foi o meu segundo país”, recorda.
No entanto, há oito anos, a insegurança obrigou a família a regressar a Portugal. “A nossa vida já não tinha valor nenhum. Era impossível continuar”, conta. Assaltos frequentes ao restaurante e à pastelaria, medo constante de sair à rua e falta de liberdade marcaram os últimos anos antes da fuga. “Vivíamos sempre em alerta. Os meus filhos não tinham liberdade alguma.”
Com a atual escalada de tensão, após os acontecimentos desta madrugada e as informações divulgadas pelas autoridades norte-americanas sobre a captura de Nicolás Maduro e da sua esposa, o receio voltou a intensificar-se, sobretudo pelo impacto que a instabilidade poderá ter na população civil.
“Caracas é a zona mais afetada, mas o Estado onde vivem os nossos familiares tem quatro bases militares. É uma zona com grande probabilidade de movimentações”, explica. “O nosso medo é que haja confrontos ou um levantamento popular. E quem sofre é sempre o povo.”
Edite rejeita a violência, mas não esconde o desejo de mudança. “Não concordo com a violência, mas concordo com a libertação de um povo que vive sob uma tirania há muitos anos. A Venezuela não tem liberdade de expressão nem segurança.”
Entre os familiares que permanecem no país está a mãe do seu genro, que vive perto da base militar de La Carlota, uma das zonas mais sensíveis neste momento. “Conseguimos falar com ela. Está bem, mas foi aconselhada a não sair de casa. Ninguém sabe o que pode acontecer.”
A angústia aumenta pela distância e pela impossibilidade de viajar. Uma visita estava marcada para este mês de janeiro. “O meu genro ia finalmente levar a filha para a avó conhecer. A avó só conhece a neta por fotografias.” A viagem foi cancelada. “Neste momento ninguém entra nem sai do país.”
A dor é agravada por perdas recentes. O pai do genro morreu durante a pandemia de Covid-19 e ele não conseguiu deslocar-se à Venezuela. “A mãe ficou sozinha. A irmã teve de fugir para os Estados Unidos. Ela ficou.”
Apesar de tudo, Edite faz questão de sublinhar que o sofrimento não é apenas pessoal. “O povo venezuelano é um povo trabalhador, familiar, acolhedor. Não merece fome, medo nem guerra.”
Em Coimbra, a família conseguiu recomeçar com esforço. A Pastelaria Tropical é hoje o sustento e o símbolo dessa reconstrução. “Viemos com as poupanças de uma vida. Não foi fácil, mas conseguimos levantar-nos.”
Ainda assim, a Venezuela nunca deixou de fazer parte da sua vida. “Temos muitas saudades da terra e das pessoas. O que queremos é que este país tenha finalmente liberdade e paz.”
Enquanto a situação permanece incerta, Edite e a família mantêm contacto permanente com quem ficou. “Vivemos com o coração nas mãos. À espera de notícias. À espera que isto termine sem mais perdas.”
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