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Viagem às origens: Como a infância e a paixão de Fernando Pereira deu vida às estações de comboio de Serpins e Lousã
Imagem: Turismo Centro Portugal
Nasceu no verão de 1945 em Miranda do Corvo e, desde cedo, o seu destino parecia traçado: trabalhar na CP como seis dos seus sete irmãos e o próprio pai.
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Um emprego sólido, respeitável e seguro, mas que Fernando Pereira não queria seguir. Irónico, o seu percurso profissional acabaria por regressar à ferrovia, agora como ponto de partida para uma carreira de empreendedorismo turístico que se estende por mais de 35 anos. Em 2025, Fernando encerrou um ciclo muito especial: a reabilitação das antigas estações de Serpins e da Lousã, locais que marcaram a sua infância e juventude.
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“Aqui foi onde tudo começou”, recorda à Turismo Centro de Portugal, junto à antiga estação de Serpins, na Lousã. Com apenas 12 anos, começou a trabalhar cedo, recolhendo ervas medicinais na Serra da Lousã, como flor de carqueja, hipericão e lúpulo, que depois secava e transportava sozinho de comboio até Lisboa para vender às ervanárias. A viagem entre Serpins e Lisboa tornou-se rotina: vendia desde ervas até capas de milho usadas para rechear travesseiros.
Aos 13 anos, expandiu o negócio para a criação de animais, percorrendo aldeias da serra para adquirir galinhas, coelhos, vacas e porcos, que transportava num vagão de mercadorias, enquanto ele seguia numa carruagem de madeira. “Passava-se muito frio, lembro-me dessas viagens como se fosse hoje”, relembra Fernando, referindo os percursos em Lisboa, onde vendia os animais antes de regressar à serra sempre de comboio.
Com o passar dos anos, o jovem empreendedor tornou-se empresário de restaurantes, discotecas e hotéis, mas a antiga estação de Serpins continuava a despertar nostalgia. Ver o espaço abandonado desde o encerramento do ramal ferroviário da Lousã, em 2009, doía-lhe: “o estado decadente daquele património tão rico devia ser preservado e mantido como deve ser”. Decidiu, então, que seria ele a fazê-lo.
Em 2022, com a abertura do concurso para reabilitação e concessão das estações ao abrigo do Fundo Revive Natureza, Fernando não hesitou em investir. Para além do significado pessoal, a estação tinha ligação familiar: o seu irmão mais velho, Fausto Pereira, morava a 50 metros e apanhava diariamente o comboio. A estação de Serpins foi assim transformada no empreendimento de Alojamento Local Ferrovia AL Serpins, homenageando a história e a família.
Durante a renovação, Fernando preservou marcas originais do edifício, como os soalhos de madeira, e manteve a memória ferroviária batizando os quartos com funções dos operadores históricos: Chefe da Estação, Chefe dos Maquinistas, Chefe de Lanço, Agulheiro, Guarda da Cancela ou Chefe de Distrito. Poucos dias após a inauguração, uma visitante especial entrou: filha do antigo chefe da estação, que passou mais de 30 anos da vida no local. “Entrou e chorou de emoção”, recorda o empresário. As paredes do empreendimento estão agora decoradas com fotografias de comboios, da estação e da antiga linha férrea, na qual vai circular futuramente o Metro Mondego.
Várias marcas do passado foram preservadas, incluindo um antigo guindaste usado para carregar cargas pesadas nos vagões, recordando as manhãs em que Fernando próprio transportava mercadorias rumo a Lisboa. O empresário pretende ir ainda mais longe, solicitando às Infraestruturas de Portugal a instalação de uma carruagem antiga no espaço, funcionando como bar e atração turística, onde os visitantes possam sentar, sorrir e tirar fotografias.
O empreendimento conta também com o Bar da Estação, uma cafetaria acolhedora construída onde viajantes e ferroviários descansavam antigamente, oferecendo bebidas, snacks e produtos endógenos. Paralelamente, Fernando conquistou a concessão da antiga estação da Lousã, agora transformada no Lousã Estação AL, ampliando o impacto turístico na região.
Apesar do “avultado investimento”, Fernando sente-se realizado: contribui para o desenvolvimento regional, cria novas respostas à procura turística e preserva património histórico e arquitetónico que continua a ser querido pelas gentes da Lousã. O reconhecimento local não tardou a chegar, com elogios e felicitações da comunidade.
Com oito décadas de vida, Fernando garante que continuará ativo no empreendedorismo turístico: “Gosto de fazer coisas novas, comecei muito novo a negociar e, daí em diante, a minha vida tem sido só negócios”. Para além destas estações, é proprietário do Hotel Quinta do Viso, em Miranda do Corvo, mas há um simbolismo especial neste projeto: está a investir no local onde a sua própria história começou. “Gosto muito do turismo, de lidar com o público, da relação com os clientes e da diversidade das pessoas. Vivo em função desta paixão pelo turismo”, afirma, com um sorriso que reflete uma vida inteira dedicada à inovação e à hospitalidade.











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