Coimbra

Vencedor de concurso anulado lamenta “oportunidade perdida” no Convento São Francisco em Coimbra

Notícias de Coimbra com Lusa | 31 minutos atrás em 17-03-2026

O artista Mickael de Oliveira, que tinha vencido o concurso para programador do Convento São Francisco (CSF), em Coimbra, lamentou hoje a “oportunidade perdida” de aquele espaço ter um projeto artístico depois de o município ter anulado o procedimento.

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“É uma oportunidade perdida para a cidade, para mim, para o Convento. Era uma oportunidade de, pela primeira vez no Convento, haver uma direção artística com um projeto claro, avaliado por especialistas”, disse à agência Lusa o antigo diretor do Teatro Oficina de Guimarães, que tinha sido o nome proposto pelo júri, por unanimidade, para programar o CSF.

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Apesar da unanimidade do júri e dos elogios ao projeto apresentado a concurso, a Câmara de Coimbra acabou por anular o concurso público, alegando falta de dinheiro para justificar a decisão.

Em declarações à Lusa, Mickael de Oliveira falou de uma “desilusão pessoal” com um processo que demorou cerca de um ano, mas vincou, sobretudo, uma desilusão com o papel que a Câmara de Coimbra, liderada por Ana Abrunhosa (PS/Livre/PAN), teve ao anular o concurso.

Ao mandar abaixo o procedimento, o município “retira qualificação a um espaço”, deixando-o também sem um projeto cultural, notou o artista, considerando que há “pouco respeito ainda por processos democráticos e pouco respeito pelos próprios compromissos que o Estado tem de honrar, independentemente das circunstâncias”.

A própria fundamentação da decisão (o município alegou dificuldades financeiras associadas aos efeitos das tempestades) mereceu críticas por parte de Mickael de Oliveira, constatando que o CSF “continua a sua atividade” e a programar, não se registado qualquer rutura.

“Politicamente, é um péssimo sinal, sobretudo vindo também de uma governação autárquica de esquerda que coliga PS, Livre e PAN. Isto é péssimo sinal para a própria esquerda”, afirmou o fundador do Colectivo 84, que ainda está a ponderar se avança ou não com uma ação judicial contra a decisão do município.

Mickael de Oliveira, que nunca foi contactado pela Câmara de Coimbra no âmbito deste processo, lamenta um “pensamento muito precário em relação ao que é a cultura e ao que é gerir a cultura”.

“Acho que tem de haver um compromisso e uma continuidade de projetos a nível local como existe a nível nacional com os teatros nacionais”, defendeu, considerando que espaços culturais não devem oscilar “consoante ciclos políticos”.

“É sempre tentador para qualquer autarca ter ao seu dispor uma máquina que pode ser de propaganda. É sempre tentador ter mão direta nesse equipamento”, notou, salientando que concursos públicos para a programação de espaços deveriam ser regra para garantir que o equipamento cultural não é instrumentalizado.

Para Mickael de Oliveira, este caso mostra como, a nível local, essas escolhas ainda dependem “da boa vontade de cada executivo camarário e do conhecimento que o autarca tem ou não sobre estas questões”, considerando que as escolhas de programadores por convite direto revelam “pouca saúde democrática”.

No início de março, foi dado a conhecer um despacho que anulou o concurso público, com a Câmara a alegar falta de dinheiro e exigência de “uma política de contenção de gastos e de recursos, por força da imperativa alocação de meios a situações de necessidade e de urgência em resultado da situação de calamidade declarada no concelho de Coimbra”.

O concurso foi lançado há cerca de um ano, pelo anterior executivo composto por uma coligação liderada pelo PSD.

Caso o procedimento se tivesse concretizado, esta seria a primeira vez que aquele equipamento cultural, inaugurado em 2016, teria um programador escolhido por concurso público.

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