Opinião

Uma família em mudanças 

OPINIÃO | Bernardo Neto Parra | 2 meses atrás em 12-04-2024

Ninguém gosta de mudanças. Retirar as louças dos armários, encaixotar  os livros, envolver os móveis com aquele plástico que os protege da  violência do transporte e instalação na nova morada. É uma  trabalheira… 

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Ainda assim, mesmo ciente da exigência da promessa, Luís Montenegro  assegurou que, se ganhasse as eleições, iria levar a cabo mudanças. E  prometeu que não seriam pequenas mudanças. Nem  mesmo moderadas mudanças. Segundo ele, sob a liderança da AD,  Portugal iria assistir às mudanças estruturais que o país reclama desde  1143. 

Vitorioso, o líder do PSD resolveu começar com pezinhos de lã. Ao  invés de apresentar o pré-anunciado plano de emergência para a saúde  ou de revelar o corpo da reforma judicial que matará — finalmente — a expressão “são os tempos da justiça”, Luís Montenegro arrancou com  uma medida simbólica: “repor símbolos essenciais da identidade e da  história” através da mudança do logótipo da administração central. 

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A medida foi simbólica, mas a reação foi pungente, gerando uma  espuma semanal muito particular em que a geometria e o design conheceram um protagonismo inusitado. 

Dias depois, foi Pedro Passos Coelho, a pretexto da apresentação de um  livro sobre identidade e família, a roubar o protagonismo aos designers.  Acolhido na manjedoura da direita mais conservadora, o ex-primeiro ministro reapareceu publicamente para declarar que a família é o pilar  central da nossa comunidade. 

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O conservadorismo das reflexões publicadas no livro foi exaltado por  Pedro Passos Coelho que, ao lado de André Ventura, deu mostras de,  também ele, querer mudanças; no caso, na política de alianças entre  PSD e CHEGA. 

A notícia abriu telejornais e despertou a ira dos seus detratores.  Rapidamente, Daniel Oliveira, na SIC Notícias, veio denunciar a 

“ofensiva ultraconservadora” que ataca a ideologia de género e Pedro  Nuno Santos, na TVI, veio assumir-se assustado com a “adoção das  bandeiras da extrema-direita” por parte da direita tradicional. Assim  como acontece com a expressão “política de imigração”, a ideia de  “defesa da família” foi suficiente para ressuscitar os espíritos  esquerdistas que, prontamente, saltaram do sofá para apontar a  aproximação do ex-líder do PSD ao conservadorismo bafiento e  saudosista representado por Ventura. 

A mim — que continuo a acreditar que “o não é não” —, o  conservadorismo não me suscita tanto choque. Entendo-o como uma  espécie de travão que modera a aceleração progressista, numa rotação  binária em que ambos são indispensáveis ao funcionamento do  motor. Ou, neste caso, da sociedade. 

Contudo, mesmo tendo simpatia por algumas destas tendências  conservadoras — nunca consegui apreciar os radicalismos que clamam  por 100 géneros ou exigem cancelamentos à J. K. Rowling —, confesso  algum cansaço com este clima de guerra cultural. Bem sei que estes  conflitos são naturais e, até certo ponto, desejáveis, mas julgo que há  meia dúzia de questões a priorizar no debate público e na decisão  política. 

Há semanas, na última vez que olhei para o meu país, isto não estava  famoso. Tínhamos uma justiça que demora 10 anos a acusar um PM  corrupto; um SNS falho que, segundo o seu diretor executivo,  conheceu, no passado mês de novembro, o seu pior mês de sempre nas  urgências; uma polícia mal paga e desqualificada que está cada vez  mais refém dos sindicatos inorgânicos; uma força militar que não  responde à realidade conjuntural de uma Europa em estado de pré-guerra; uma crise na habitação, inalcançável até para quem trabalha; um  ensino cada vez mais decrépito e burocrático que atravessa uma  gigantesca assimetria demográfica; ou um aeroporto cuja localização  está a ser estudada há mais de meio século. 

Eu sei que só vamos nas primeiras semanas; também sei que o Governo  tem uma margem de manobra diminuída; e até sei que os símbolos e a  identidade histórica devem ser preservados por quem  (circunstancialmente) se encontra no poder. Ainda assim, não  acompanho a vertigem identitária de alguma direita que, perto do  poder, prefere ressuscitar as guerras culturais a focar-se nas mudanças  estruturais. 

Concedo, porém, que é muito cedo para fazer exigências à nova  governação. E, aí, talvez o problema seja meu. Talvez esta ânsia por  mudanças me esteja a retirar a paciência e o vigor que me fariam  empenhar esforços em disputas de costumes. Talvez eu devesse  carregar as armas e insurgir-me, em marcha, contra os canhões da  “sovietização do ensino”. 

O mesmo ensino que tem professores a dormir em carros. O mesmo  ensino que, a três meses dos exames nacionais, ainda tinha 30 mil  alunos sem professores. O mesmo ensino que exalta os meus  camaradas mais otimistas: “Não há professores? Olha, ainda bem. É  da maneira que não põem a ideologia de género na cabeça dos  miúdos!”. O problema é que também não põem a matemática e o português e esses fazem mesmo falta à tola da criançada.

OPINIÃO | BERNARDO NETO PARRA

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