Opinião

Um CHEGA…zinho

OPINIÃO | Nuno Mateus | 3 meses atrás em 23-01-2024

Hoje, deixo o conforto do sofá conimbricense, para reflectir convosco sobre um tema maior: o medo instalado nos dois maiores partidos tradicionais, com o fenómeno do CHEGA.

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Assisti, durante horas a fio, àquele misto de circo, convenção da IURD, comício, e encontro de vendedores de tupperware, que foi o Congresso do CHEGA. E escutei, com um sorriso sibilino, às dezenas de comentadores que falavam incessantemente, chegando ao ponto de analisarem a cor da gravata que André Ventura usava, em cada dia deste encontro nacional.

Muito foi dito e escrito sobre este fenómeno da política portuguesa. Muito foi dito…mas, na minha modesta opinião, pouco se disse com propriedade e acerto sobre este tema.

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Em primeiro lugar, desmistificando o CHEGA, diga-se que aquilo não é um verdadeiro partido político. É um movimento político de um homem só, baseado no culto da personalidade extravagante do seu incontestado líder. Fazendo lembrar um pouco o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, de Adolf Hitler, ou o Partido Republicano Fascista, de Benito Mussolini, ou o Partido do Trabalho da Albânia, de Enver Hoxha.

Em Portugal, semelhanças com o Partido Renovador Democrático, fundado à imagem de Ramalho Eanes.

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Em segundo lugar, pouco se sabe – nem interessa que se saiba – dos fundamentos ideológicos, que levaram à criação destes epifenómenos. Importante, para os seguidores, é a imagem, a voz, o discurso de um homem. Tudo o que ele diz é absorvido como se uma verdade imutável se tratasse, nada se questionando, e venerando-se até as suas incongruências, como se fossem novas leis divinas.

André Ventura é isto mesmo. E a história diz-nos que as coisas correram mal, mesmo muito mal, com estes movimentos. Levaram a guerras, mortes, sofrimento, quedas de governos e de regimes, mas também sempre a um final: a sua decapitação, quando o povo finalmente entendeu que o líder tinha pés de barro e telhados de vidro, não sendo o messias salvador.

Mas, neste Portugal do século XXI, será que a situação é a mesma? Será que André Ventura quer realmente exercer o poder executivo? Ele vocifera que sim. Eu acredito que não.

E porquê? Porque André Ventura sabe que não é um verdadeiro líder, mas sim um líder remediado e remendado, apenas sustentado por uma parte dos descontentes, e por aqueles que desacreditaram nos partidos fundadores da democracia portuguesa. André Ventura não tem cultura política sustentada em qualquer ideologia. Tem, apenas, cultura televisiva, futebolística, tendo bem aprendido a lidar com os órgãos de comunicação social e a transmitir uma imagem quase divina. E tem a perfeita noção que enquanto se mantiver fora de qualquer governo, poderá tentar ser um fiel da balança, impor meia dúzia de parvalheiras legislativas, e continuar a esbracejar e a gritar muito.

Se, numa atitude suicidária, aceitasse um qualquer cargo ministerial, passado pouco tempo aconteceria-lhe como aos demais ministros: seria insultado, cuspido, levaria com ovos, lembrar-lhe-iam as promessas não cumpridas, e a sua mística esfumava-se num ápice. E com isto, o CHEGA levaria o mesmo fim dos partidos populistas de um homem só: extinguia-se.

Foi esta a conclusão a que cheguei; e não entendo o temor que o CHEGA faz a Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos. E só o aceito – a este temor – se pura e simplesmente não se acharem capazes de captarem o povo português.

Mas aí a culpa não é do Ventura nem do seu populismo barato e boçal.

A culpa é destes dois grandes partidos, que terão de ter lideranças fortes, capazes e que conquistem pelas ideias, pelo trabalho, pela coerência, pela honestidade, e por criarem a esperança de uma vida melhor, a quem ainda vive neste país à beira mar plantado.

Aparentemente, pelo medo dos seus lideres, e pelas intenções de voto no CHEGA…o PS e o PSD terão de se reinventar…e depressa!

Opinião | Nuno Mateus – Jurista

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