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Ucrânia: Ana Rita e Nelson são uma das mais de cem famílias prontas a acolher uma criança refugiada

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A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem mais de cem famílias prontas para acolher uma criança refugiada ucraniana, como Ana Rita e Nelson para quem a possibilidade de ajudar sobrepôs-se a qualquer dificuldade cultural ou linguística.

A ideia chegou a casa pela vontade de Ana Rita, mas Nelson “imediatamente disse que sim” perante a constatação de haver crianças que, por causa de um contexto de guerra, são temporariamente afastadas da família biológica e precisam de uma outra família que as possa acolher.

“O que nos motivou foi uma premissa muito simples, que é a questão de percebermos que há uma criança que está a passar por um momento de fragilidade e que nós, enquanto família, podemos ser um apoio para essa criança, um porto seguro, por assim dizer”, afirmou Ana Rita.

Uma família que não se cinge ao núcleo dos pais e das duas filhas, mas que, tal como disse Nelson, alarga-se à rede familiar que existe, desde os avós, tios e todos os familiares mais próximos que “dão uma rede de apoio bastante boa”.

Em entrevista à Lusa, o diretor da Direção Infância, Juventude e Família, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), explicou que não existe uma família ideal para assumir este compromisso e que o que procuram são “famílias adequadas”, capazes de se ajustar às necessidades da criança e com “flexibilidade mental” perante hábitos culturais diferentes.

“Nós, na cultura latina, somos muito em cima, estamos sempre muito apegados, e, por exemplo, na cultura ucraniana eles precisam de mais espaço. As pessoas têm de ter flexibilidade mental e respeitar o espaço”, exemplificou Rui Godinho.

Questões para as quais Ana Rita assume estar preparada, fazendo uso não só da sua experiência profissional como assistente social, com trabalho com crianças refugiadas, mas também de voluntariado que tanto ela como o marido têm feito em instituições de acolhimento.

“Nós, enquanto família, achamos que essas questões [culturais] são as mais fáceis de ser ultrapassadas. A questão da comunicação, as crianças aprendem com muita facilidade e nós também acabamos por perceber como é a cultura e a língua”, disse Ana Rita.

Já Nelson, que partilha do ponto vista, lembrou que as novas tecnologias poderão dar uma ajuda quando chegar o momento de comunicar com uma criança ucraniana e apontou que a questão emocional é que “poderá ser o maior desafio”.

Sobre isso, Ana Rita complementou que a família tem noção de que poderá vir a estar confrontada com dois grandes desafios: a imprevisibilidade e o apego.

“Não sabemos quando é que vamos receber a criança e não sabemos quando é que ela vai retornar à família biológica. O outro desafio maior é a questão emocional, do apego e do desapego. Não é uma coisa fácil porque ela vai fazer parte do nosso dia-a-dia, vai estar connosco enquanto família e isso sim, achamos que será o grande desafio”, apontou.

Rui Godinho explicou que as crianças que vierem a ser acolhidas por estas famílias, às quais a SCML deu formação e certificou, “ainda não estão” em Portugal e que “virão de acordo com um programa planeado pelo Estado português com a Polónia, Roménia ou outros países”.

“Esse é um processo que está em conversação e que até pode vir a não acontecer por desnecessidade. Nós estamos a preparar-nos para, se for necessário, estarmos capazes, é isso que estamos a fazer”, adiantou.

A SCML conta ter brevemente entre 110 a 125 famílias certificadas, tendo a formação incluído dois momentos de duas horas cada, um sobre questões da multiculturalidade, outro sobre as questões específicas do acolhimento familiar, uma sessão inicial de esclarecimento para afinar as motivações das pessoas e três momentos de avaliação.

Segundo o responsável da SCML, a guerra na Ucrânia despertou muitas famílias portuguesas para o acolhimento familiar, tendo a instituição recebido mais de mil manifestações de interesse em receber uma criança ucraniana refugiada, “uma generosidade” que levou o organismo, juntamente com o Instituto de Segurança Social, a criar um programa especial para estas crianças.

Rui Godinho espera, por isso, que esta motivação das famílias portuguesas possa também ser canalizada para o programa de acolhimento familiar regular.

“Estamos a preparar um programa complementar de avaliação e de formação para que as famílias que estão no programa excecional para as crianças provenientes da Ucrânia, se tiverem essa motivação e interesse, possam passar para o programa regular através desse processo, ajudando a este grande projeto de desinstitucionalização das crianças”, adiantou.

O responsável lembrou que a SCML lançou recentemente uma segunda campanha de angariação de famílias de acolhimento, um programa no qual 84 crianças estão ou estiveram, um “número muito expressivo”, tendo em conta a “cultura muito institucionalizadora” que ainda existe em Portugal.

“Temos quase 70 famílias certificadas no processo regular e 16 a concluir o processo, mas temos várias outras inscritas e que estão a iniciar o processo e com a campanha estamos a contar com um aumento exponencial de famílias”, admitiu.

Rui Godinho aproveitou para sublinhar que “o ambiente normal para uma criança crescer é o ambiente familiar” e deixou o desejo que o programa de acolhimento familiar de crianças provenientes da Ucrânia possa ser uma “alavanca” para o próprio acolhimento familiar de uma forma global.

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