O sol brilha neste domingo, mas o cenário junto ao dique de Casais, na margem direita do Rio Mondego, está longe de ser luminoso.
Debaixo da A1, são muitos os curiosos que se aproximam para ver de perto os estragos provocados pela rotura do dique. Entre eles, agricultores que ali deixaram uma vida inteira de trabalho.
José Ricardo, 74 anos, agricultor da Ribeira de Frades, percorreu este domingo os seus terrenos afetados pela cheia. O que encontrou deixou-o de “coração nas mãos”.
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“É uma vida inteira de trabalho… e agora vê-se aquilo que é uma desgraça. Está tudo completamente estragado.”
O agricultor tem entre 15 a 17 hectares na margem direita que ficaram submersos após o rebentamento do dique. Produz sobretudo milho, e vive exclusivamente da agricultura com o filho.
“Não sou dos mais prejudicados, mas tenho lá bastantes prejuízos. A terra foi toda embrulhada, tem lá areia por todo o lado.”
Valas abertas, montes de areia, manilhas e pedras espalhadas pelos campos compõem um cenário de destruição. Mais acima, garante, “é uma desgraça autêntica”.
“Eu não sei como é que isto vai ser. Financeiramente não estou preparado para recompor a terra. Se o Estado não repuser, isto não foi culpa nossa.”
José Ricardo conhece o comportamento do Mondego como poucos. Durante os dias críticos, desafiou as restrições para vigiar os terrenos.
“Vinha três e quatro noites, escondido com o trator. A polícia não me deixava. Tinha sinais no rio. Quando chegasse àquele ponto máximo, punha tudo em pé de guerra.”
Conta que viu a água a galgar ligeiramente a mota do outro lado antes de o dique ceder.
“Se rebentasse para o outro lado, era pior que a outra cheia. Assim, acabou por ser um mal menor… mas mesmo assim afetou-me muito.”
Entretanto, o Ministério do Ambiente e da Energia informou que a Agência Portuguesa do Ambiente concluiu uma intervenção provisória que permitiu repor a estanquicidade do dique de Casais.
A operação impede agora a passagem de água do leito central do Mondego para os campos adjacentes, possibilitando a drenagem dos terrenos ainda inundados. Trata-se de uma etapa essencial para a futura reparação definitiva do dique, do canal condutor geral e da estrada.
Mas para agricultores como José Ricardo, a urgência é outra: “Ser agricultor hoje não é nada fácil. A gente não sabe para que lado é que vai cair. Quem é que contava com isto?”