Dormir bem e com horários regulares é essencial para a saúde física, emocional e mental. Mas para quem trabalha por turnos ou à noite, a desorganização do sono pode trazer consequências mais sérias do que cansaço: pode ser um fator de risco para cancro.
A Agência Internacional para a Investigação em Cancro (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o trabalho noturno em turnos como “provavelmente carcinogénico para humanos”. A explicação, segundo Miguel Meira Cruz, diretor da Unidade de Sono do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa, passa pela desorganização crónica do relógio biológico.
“A exposição à luz durante a noite e a inversão dos horários de sono-vigília reduzem a produção de melatonina, uma hormona com propriedades oncoprotetoras”, explica o especialista ao Viral e ao Polígrafo.
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Além disso, a inversão dos ciclos de sono altera outras hormonas, perturba genes que controlam o ciclo celular e a reparação do ADN, afeta o sistema imunitário e aumenta inflamação e alterações metabólicas — criando um terreno mais favorável ao desenvolvimento e progressão tumoral.
Quase todas as células do corpo possuem um relógio interno molecular que regula quando devem reparar ADN, proliferar, usar energia e responder a sinais inflamatórios. Quando este relógio está cronicamente desalinhado — por exemplo, devido a turnos noturnos, luz intensa à noite ou horários irregulares — estudos em animais mostram maior número de mutações, crescimento tumoral acelerado e, por vezes, menor eficácia de certos tratamentos oncológicos.
É por esta razão que cresce o interesse na cronoterapia oncológica, que ajusta os horários da medicação ao relógio biológico para aumentar a eficácia e reduzir efeitos adversos.
Segundo Miguel Meira Cruz, a evidência de que dormir poucas horas por noite aumenta o risco de cancro é menos consistente do que para o trabalho noturno. Embora alguns estudos sugiram maior risco para determinados tumores ou grupos específicos, os efeitos parecem modestos quando comparados a fatores como tabaco ou obesidade.
O especialista reforça que não é preciso alarmismo, mas reconhece que turnos mal organizados, com exposição intensa à luz e sono irregular, podem ser mais um fator de risco.
“Melhorar o desenho dos turnos, proteger o sono, minimizar luz intensa à noite e controlar outros fatores de risco — como tabaco, álcool, sedentarismo e obesidade — são estratégias realistas para reduzir o impacto no desenvolvimento de cancro”, conclui.
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