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Trabalhadores intermitentes das artes alertam para situação aflitiva

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Uma situação aflitiva, é como os artistas intermitentes dizem estar a viver após os cancelamentos dos espetáculos que tinham em agenda devido à pandemia da covid-19.

Na região do Porto, por exemplo, 98 artistas que cancelaram espetáculos em março, abril e maio devido à covid-19 vão ter perdas superiores a 171.000 euros, disse à agência Lusa o ator e encenador Rui Spranger, administrador de uma página no Facebook intitulada “Intermitentes Porto e Covid”, numa referência ao trabalho que exercem, sem continuidade e espaçado ao longo do ano.

“Perdas incalculáveis”, sublinhou o encenador que administra aquela página, enfatizando que mesmo que aqueles profissionais venham a obter subsídios dos que vão ser libertados para esta crise, a maioria daqueles profissionais vai ter “perda de rendimentos na ordem dos 50%”.

Para Rui Spranger, mais grave ainda é o facto de as pessoas não saberem quando vão receber as verbas excecionais, mesmo tendo de continuar a comer, a pagar casa e outras despesas, frisou.

Se a covid-19 representa um “verdadeiro descalabro” para a maioria dos intermitentes do espetáculo, não representa uma ameaça muito menor para todas as companhias de teatro que viram as suas atividades suspensas ainda antes de ser decretado o estado de emergência em Portugal.

Mesmo para as que recebem financiamento da Direção-Geral das Artes, o que lhes permite “ter uma almofada mais cómoda” para gerir esta crise, como disseram à Lusa representantes de estruturas subsidiadas, a incógnita do que virá depois é uma ameaça “muito pesada”.

“Ninguém sabe o que vai ser depois, como conseguiremos ou se conseguiremos reprogramar em tempo útil os trabalhos que tínhamos em mãos”, disse a responsável pela Escola de Mulheres-Clube Estefânia à agência Lusa.

“Há gente que está muito mal, que precisa de apoio direto para comer”, insistiu Fernanda Lapa, admitindo que houve boas intenções em disponibilizar verbas extraordinárias, mas considerando que a situação de exceção que atinge agora os artistas não se compadece com a morosidade com que serão distribuídas. “As medidas são boas, mas são esparsas”, indicou, lembrando que as companhias pararam totalmente a sua atividade.

Também Raimundo Cosme, da Plataforma 285, considera que o setor está a viver “num caos ainda maior do que é habitual”.

Mesmo que em outubro se comece a fazer coisas, para quantas pessoas serão, questiona-se Raimundo Cosme, que diz acreditar que mesmo depois de passar esta fase “muita gente terá receios de ir a locais onde esteja muita gente”.

“Está tudo a apostar em outubro/novembro só que depois não haverá espaços para pôr em cena tudo o que ficou em ´stand-by` nestes meses”, considerou.

Para Raimundo Cosme, o que “salva ainda a situação” é algumas câmaras e organismos estarem a pagar os serviços como se estes não fossem cancelados.

Apesar de elegível, a Plataforma 285 não recebeu qualquer valor da Direção-Geral das Artes, o que levanta problemas se não fizeram apresentações durante um semestre, referiu.

“O grande problema disto tudo, parece-me, é que não sabemos quando é que podemos ter alguém dentro de uma sala”, frisou.

São José Lapa, que gere a cooperativa Espaço das Aguncheiras, no concelho de Sesimbra, está também muito preocupada com a situação “muito difícil que a cooperativa está a atravessar com a covid-19”.

Tendo concorrido aos apoios bienais da Direção-Geral das Artes, a cooperativa não recebeu qualquer financiamento apesar de ter sido considerada elegível.

“Com a questão da covid, concorremos a este apoio excecional do Ministério da Cultura, mas também não sabemos se vamos receber algum apoio nem quando”, referiu.

“Se há apoios para as empresas e não precisa de haver concursos, por que motivo é que na Cultura tem que haver concursos”, questionou-se a atriz e encenadora, sublinhando que apesar da “boa vontade destes apoios é tudo muito burocratizado”.

“A esperança é que isto acabe até julho e que depois possamos colocar as cadeiras à distância recomendada e assim podermos trazer de novo público às Aguncheiras, que é um espaço ao ar livre”, sublinhou.

Já João Garcia Miguel, da companhia a que dá nome, mostrou-se preocupado pelas grandes dificuldades que estão a atravessar os artistas “’freelance’, que são os que estão no fim da linha da cultura”.

“Se para nós que somos subsidiados já não é fácil, imagine-se para quem trabalha sem rede alguma ou sem apoio financeiro algum”, disse, sublinhando que “é mais do que tempo de se repensar todos os modelos de apoio à cultura”. “Já provaram que não funcionam em tempos normais, como haviam de funcionar em tempos de crise”, ressalvou.

Até porque, se no primeiro mês de paragem de atividade ainda havia alguma almofada financeira para amortecer a crise, ao segundo mês isso já não acontece, frisou.

“O que se passa é que estamos a entrar num processo dominó, que leva tudo abaixo”, sustentou.

Para minorar este “efeito dominó”, João Garcia Miguel deixa um repto para que após a covid-19 tudo o que haja de festivais em Portugal seja feito com artistas portugueses.

Também a atriz e encenadora Maria do Céu Guerra, uma das responsáveis pela companhia A Barraca, considera que tanto o Governo como a Fundação Calouste Gulbenkian deram mostras de querer ajudar os artistas.

“Só que é tudo muito lento e muito burocratizado e as necessidades são para o agora. Não se compadecem com esperas, porque há pessoas que estão a viver situações terríveis”, disse.

Para Levi Martins, da Companhia Mascarenhas Martins, com sede no Montijo, a pandemia de covid-19 veio pôr de “pernas para o ar” um setor que já não beneficiava de grande saúde financeira.

“A cultura fica pior, mas não fica muito, muito diferente, porque já era maus antes”, disse. A grande questão é o que vem a seguir”, enfatizou

Para Levi Martins, não é mais possível continuar a funcionar com os modelos existentes, tal como há que criar, o mais urgentemente possível, o estatuto de intermitência, sustentou.

Preocupado com a situação está também José Maria Dias, diretor do Teatro Estúdio Fontenova, em Setúbal.

Apesar de apoiada, a estrutura que estava quase a estrear a primeira criação de 2020 teme o que se vá passar no futuro.

“Até porque ninguém sabe até quando vão durar todas as restrições impostas devido à doença”, concluiu.

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