Região

“Tinha mais de 5 metros de altura”: o fogo que quase levou tudo em Mourísia

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 17 minutos atrás em 17-03-2026

Uma semana depois da visita do Presidente da República, António José Seguro, a aldeia de Mourísia, no concelho de Arganil, voltou ao silêncio. As ruas estão vazias, a calma domina.

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Foi assim que encontrámos Mário Costa, de 82 anos, de enxada na mão, a preparar a terra para mais uma sementeira de batatas. Um gesto simples que carrega décadas de ligação à terra.

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“Eu agora cabo a terra e depois é para semear as batatas”, conta, com naturalidade, enquanto trabalha num terreno. Apesar da idade e das limitações físicas — “já tenho dois postos nas ancas e tenho muitas saudades dos joelhos” — não abdica de cultivar.

Mário não é residente permanente. Vive grande parte do tempo na Cova da Piedade, em Almada, mas regressa sempre às origens: “Eu gosto disto, se não estava lá em baixo. Tenho lá uma casa boa… mas a minha casa é aqui.”

Veio recentemente à aldeia, também motivado pela visita presidencial: “Vim mais ou menos para ver o Presidente da República… já era para ficar cá.”

Durante os incêndios de agosto, Mário estava em Mourísia e ajudou como pôde. Recorda dias e noites de tensão constante: “Passámos a noite toda à espera dele”, diz, referindo-se ao fogo que ameaçava a aldeia.

Com meios improvisados, tentou salvar o que era possível: “Fui lá depressa com a mangueira… tinha ali uns feijões, ainda fui arrancá-los para ver se não ardiam.”

Apesar da violência das chamas — “tinha mais de cinco metros de altura” — conseguiu evitar perdas maiores. “A casa não ardeu… mas aquilo era uma força…”, descreve.

Hoje, o maior problema é outro: o despovoamento. “Isto morre tudo… está tudo velho”, afirma, sem rodeios.

Mourísia tem pouco mais de uma dezena de habitantes permanentes, quase todos idosos. A falta de jovens e de dinâmica é evidente: “Antigamente havia muita rapaziada nova, agora está tudo velho.”

Apesar das dificuldades, há sinais de entreajuda e resistência. A alimentação chega através da comunidade, a mercearia funciona na casa do povo, e os vizinhos apoiam-se mutuamente.

Mário valoriza essa ligação: “Para a gente cá comer, já trazem comida para três pessoas.”

E mesmo perante as limitações, mantém o humor e a vontade de fazer: “Vale mais uma mão inchada do que uma enxada na mão”, diz, entre risos.

Uma semana depois, o mediatismo desapareceu — e ficou a realidade de sempre.

Mourísia foi a primeira aldeia a ficar cercada pelas chamas no concelho de Arganil. Hoje, continua cercada por outro tipo de ameaça: o isolamento, o envelhecimento e o esquecimento.

Mas enquanto houver quem regresse à terra para semear batatas, cuidar dos campos e contar histórias, a aldeia continua viva — mesmo que em silêncio.

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