As tempestades que têm atingido Portugal mostram que “não estamos todos no mesmo barco” no que diz respeito à vulnerabilidade habitacional, assinala Flávio Almada, um dos porta-vozes do movimento Vida Justa.
O impacto “depende também de quem afeta, depende muito da condição, de onde se está a viver, depende de um conjunto de fatores, não é algo neutro”, observa, em declarações à Lusa, a partir do bairro da Cova da Moura, no concelho da Amadora, onde nasceu e trabalha como técnico de apoio familiar e membro da direção da Associação Moinho da Juventude.
As pessoas devem viver com boas condições, mas morar “num bairro chique” é mais seguro do que residir num bairro periférico: “É como aquela coisa da pandemia que dizia ‘estamos todos no mesmo barco’, não, nós não estamos no mesmo barco, porque há pessoas que têm uma [maior] vulnerabilidade de habitação, porque não têm condições económicas, apesar de trabalharem bastante”, ressalva.
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O impacto do mau tempo “depende de bairro para bairro, mas, no geral, a condição de habitação [nas periferias] é muito precária, mesmo nos chamados bairros municipais”, constata Flávio Almada, ativista também conhecido como LBC.
“As casas não têm condições, a humidade é terrível, às vezes, no inverno, a casa é muito mais fria do que a rua, então isso automaticamente tem um impacto terrível”, detalha.
Como se isso já não bastasse – denuncia -, as câmaras municipais, “além da crueldade de deixarem as pessoas sem casa, parece que escolhem esses dias mais frios, que têm mais tempestade, para colocar as pessoas na rua”, através dos despejos.
“Aconteceu no bairro Quinta da Lage, aconteceu no 1.º de Maio, aconteceu no Pendão, aconteceu na Urmeira”, elenca, sentenciando: “isso tem um impacto terrível na vida das pessoas.”
Estimando que 90% da população portuguesa viva com fragilidades habitacionais, o Vida Justa critica ainda “a forma como o próprio Governo respondeu, que é uma coisa inadmissível, que devia gerar uma indignação grande” e solidariza-se com as populações das zonas mais afetadas.
“Como é que é possível alguém dizer assim a uma família que perdeu tudo ‘utiliza o dinheiro do fim do mês’, sem ativar os mecanismos de urgência?”, questiona Flávio Almada, referindo-se às declarações feitas pelo ministro da Economia e da Coesão Territorial, que o próprio Manuel Castro Almeida viria a admitir que “não foram felizes”.
“Se fosse um banco, rapidamente ia-se ativar tudo. Agora, no caso das pessoas que fazem esse país funcionar, que trabalham, basicamente, que contribuem para o desenvolvimento, que sem essas pessoas a cidade não funciona, o país não funciona, a riqueza não é produzida…”, compara, responsabilizando o “governo de uma minoria de ricos”.
O mau tempo revelou ainda “a condição do pessoal que vive no campo, que não tem acesso a transportes, que tem falta de infraestruturas”, a que acrescem os problemas de isolamento, resultantes da “macrocefalização da cidade, em que toda a gente vem para a cidade e o campo está ou abandonado ou entregue à grande propriedade”, aponta o porta-voz do Vida Justa.
A passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta por Portugal – e as inundações e cheias que as acompanharam – causaram 16 mortos e muitas centenas de feridos e desalojados, a destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte e o corte de energia, água e comunicações.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
Entretanto aproxima-se nova tempestade, Oriana, tendo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) colocado sob aviso amarelo de chuva os distritos de Aveiro, Braga, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Guarda, Leiria, Lisboa, Portalegre, Porto, Santarém, Setúbal, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu.
A depressão Oriana não irá afetar Portugal continental diretamente, mas causará, entre hoje ao final da tarde e a manhã de sexta-feira, períodos de chuva, por vezes forte, e vento com rajadas até 80 quilómetros por hora, segundo o IPMA.