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Solidão relacional e redes de apoio frágeis afetam pessoas LGBTQ idosas

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As pessoas LGBTQ idosas enfrentam uma solidão relacional e redes de cuidado mais frágeis devido ao passado opressivo, refere estudo da Universidade de Coimbra, que sublinha, no entanto, que a velhice também traz uma liberdade que nunca tiveram antes.

As conclusões são dos primeiros resultados preliminares do projeto REMEMBER – Vivências de Pessoas LGBTQ Idosas no Portugal Democrático, da responsabilidade da investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra Ana Cristina Santos.

Nesta primeira fase, o projeto contou com dez entrevistas de profundidade a pessoas LGBTQ com idades entre os 60 e os 75 anos, de diferentes zonas do país, sendo a maioria “pessoas escolarizadas e com algum capital cultural e económico”, afirmou à agência Lusa a investigadora.

O estudo aponta para uma maior propensão desta população para a solidão e para a fragilidade das redes de cuidado, pela ausência de ligação à família biológica ou da existência de cônjuge.

“Os entrevistados e entrevistadas não sentem que fazem parte de uma comunidade e têm necessidades específicas face às outras pessoas idosas, por via de um percurso de discriminação social. Esta geração não pôde casar, não pôde adotar, não pôde ter filhos e teve que, em muitos casos, fazer um corte radical com a família que, muitas das vezes, mantém-se até hoje”, salienta a investigadora.

Esse corte completo com a família “fragiliza estas pessoas e levam a uma dependência – que reconhecem – face ao companheiro ou companheira, caso estes existam”, nota.

Apesar de poder haver outras redes de apoios, Ana Cristina Santos sublinha que vários estudos têm demonstrado que, em casos de doença ou de necessidade de cuidados continuados, “as redes de amigos não se estão a provar tão eficazes”.

Segundo a investigadora, pessoas LGBTQ idosas que acabam por ir para os lares “voltam ao armário, o que é uma tristeza imensa”.

No entanto, a geração que entrevistou já não estará “tão disponível para voltar ao armário”.

Porém, a ideia de ir para um lar “assusta” os entrevistados do projeto, que apesar de não desenharem grandes planos de preparação para a fase final da vida, assumem uma preocupação quanto a esse futuro.

“Ao início, dizem: ‘Eu basto-me a mim próprio’. Mas depois, vê-se alguma preocupação e a tentativa de encontrar um caminho”, constata, considerando que o lar é visto “como um lugar onde não se podem sentir completamente à vontade”.

No entanto, Ana Cristina Santos frisa que a velhice para estas pessoas não é “só sofrimento e só dor”.

“Para minha surpresa e comoção, havia pessoas que diziam que a coisa mais extraordinária da sua vida é não dever nada a ninguém. Tem liberdade para ser quem é, não corre riscos, não vai ser despedido”, salienta.

Para a investigadora, a velhice representa também um momento em que estas pessoas finalmente podem ocupar um espaço e serem quem são, depois de um percurso marcado por vários níveis de opressão.

Sublinhando a riqueza desta geração “do ponto de vista teórico e político” por ter atravessado várias fases e mudanças do país, Ana Cristina Santos conta que o projeto tenta também compreender como é que os entrevistados acompanharam todas essas alterações.

“Nós perguntámos qual era a alteração mais significativa. Eu esperava que toda a gente respondesse em coro o casamento, mas para minha surpresa não. Houve quem falasse do 25 de Abril ou da despenalização [em 1982]. Temos, de facto, ideias preconcebidas sobre o que faz a diferença, porque estamos muito centrados e centradas numa geração dos 30 ou 40 anos para baixo”, realça.

Nas dez primeiras entrevistas realizadas, o projeto não conversou com pessoas trans, refere Ana Cristina Santos, constatando que é “muito difícil encontrar pessoas trans” mais velhas.

“Isso é um sinal que nos deve fazer pensar. Não temos dados nos Censos porque não são recolhidos e não posso dizer quantas pessoas trans há em cada faixa etária, mas sei a quantidade de pessoas trans que têm morrido por várias razões e isso deve-nos fazer refletir, porque o percurso das pessoas trans em Portugal é de uma precariedade muito assustadora”, frisa.

A segunda fase do projeto irá contar com mais 15 entrevistas de profundidade para aprofundar alguns dos temas já abordados.

O projeto termina em 2024, prevendo-se a produção de um Guia para Pessoas Prestadoras de Cuidados a Pessoas Idosas e a criação de um arquivo de histórias de vida LGBTQ+ de pessoas com mais de 60 anos.

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