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“Só se vê castanho e preto”: O retrato do postal de Foz d’Égua após a destruição dos incêndios
Na aldeia de Foz d’Égua, no concelho de Arganil, o cenário que durante anos foi um autêntico postal turístico continua marcado pelas cicatrizes deixadas pelos incêndios do verão passado.
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O dia 15 de agosto de 2025 permanece vivo na memória de quem aqui vive — poucos, mas profundamente ligados à paisagem que outrora era dominada pelo verde.
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O Notícias de Coimbra esteve no local e encontrou uma paisagem ainda longe da recuperação total. Onde antes predominava o verde das encostas e das árvores, hoje destaca-se sobretudo o castanho e o cinzento. A zona da praia fluvial e a ponte pedonal, inaugurada pouco antes dos incêndios e que rapidamente se tornou ponto de atração turística, surgem agora envolvidas por terrenos queimados.
Entre os poucos residentes permanentes está Carlos Pereira, um dos três habitantes que vivem todo o ano na aldeia. Recorda com clareza os momentos de tensão vividos durante o avanço das chamas. “Sim, vivi e vi tudo. Foi muito assustador. Ainda hoje às vezes pensamos que não volte a acontecer, mas com estas coisas nunca se sabe”, contou.
Segundo o morador, perdeu-se muito do que tornava aquele lugar único.
“Ardeu tudo. A chuva vai limpando um bocado, mas vai demorar tempo a voltar o verde. Antigamente isto estava cheio de cores — rosa, amarelo, tudo florido. Agora só se vê castanho e preto.”
Os incêndios não pouparam também os pequenos bens agrícolas de muitos residentes. Carlos Pereira perdeu várias árvores de fruto. “Perdi árvores de fruta, uma cerejeira, videiras, oliveiras… e muitas estão agora a secar.”
Apesar da destruição, as pessoas continuam a chegar à aldeia, sobretudo proprietários de casas de férias que regressam nos meses mais quentes. A reação, diz Carlos Pereira, é muitas vezes de choque. “Ficam desiludidas. Pensavam encontrar melhor. Vêm pelas fotografias antigas no Facebook, mas quando chegam aqui não é aquilo que estavam à espera.”
A situação é agravada por problemas nas acessibilidades. Depois dos incêndios, a região enfrentou também tempestades que provocaram derrocadas em algumas estradas locais. “Há caminhos que ainda não estão arranjados. As pessoas têm de voltar para trás ou dar uma grande volta. Aqui eram quatro quilómetros, agora chegam a ser oito para apanhar a estrada de Côja”, explica.
Para uma aldeia já isolada, os constrangimentos tornam-se ainda mais difíceis, sobretudo em situações de emergência. “Se alguém se sente mal, uma ambulância tem muito mais dificuldade em chegar. Ficamos mais isolados.”
Sete meses depois do incêndio, Carlos Pereira afirma que ainda não recebeu qualquer apoio para recuperar as árvores destruídas. “Ainda não chegou nada. E há quem diga que, para oliveiras já velhas, o Estado não vai dar nada.”
O fogo começou a 13 de agosto, mas foi dois dias depois que a situação se agravou. Os poucos habitantes que estavam na aldeia tentavam vigiar a evolução das chamas. “Andávamos todos a ver se conseguíamos controlar alguma coisa.”
Quando chegou a ordem de evacuação, Carlos Pereira resistiu. “A mim tiveram de me levar à força. Não queria ir.” Mesmo depois de sair, regressou à aldeia às escondidas. “Voltei à tarde, às escondidas da polícia. Ainda fui apanhado, mas deixaram-me passar.”
O objetivo era proteger a casa e ajudar a apagar pequenos focos de incêndio. “Ainda consegui apagar alguns sítios. Do dia 13 à noite até ao 14 não dormi. Andei sempre à volta a ver onde podia apagar.”
Hoje, ao olhar para a paisagem transformada, Carlos Pereira diz que o que mais deseja é simples. “Que venham outra vez as cores que a gente via. Para o moral é melhor.”
Em Foz d’Égua, um dos cenários mais fotografados da região, o postal mudou de cor. O verde que atraía visitantes deu lugar ao castanho das encostas queimadas — mas entre os habitantes permanece a esperança de que a natureza, com o tempo, volte a pintar a paisagem.
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