Saúde

Sem cura, mas com esperança. Como a medicina está a mudar a vida destes doentes

Susana Brás | 2 horas atrás em 12-03-2026

Em Portugal, registam-se mais de 10.500 novos casos de cancro colorretal por ano, segundo dados do Globocan.

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Trata-se de uma das neoplasias mais frequentes no país e, como explica Catarina Abreu, oncologista no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, em cerca de 15% a 20% dos casos o diagnóstico ocorre já numa fase metastática. Nesta fase da doença, o tratamento com intenção curativa deixa de ser uma opção real para a maioria dos doentes.

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É neste contexto que surge um desafio central na prática clínica: encontrar o equilíbrio entre prolongar a vida e preservar a qualidade de vida.

A especialista sublinha que “não haver cura não significa não haver tratamento”. Mesmo em fase metastática, existem abordagens terapêuticas capazes de controlar a doença e melhorar o bem-estar do doente.

“A medicina atual dispõe de terapêuticas eficazes que permitem controlar a progressão da doença, reduzir sintomas e, em muitos casos, prolongar a sobrevivência com qualidade”, explica Catarina Abreu.

Assim, tratar pode significar viver mais tempo com maior conforto, autonomia e controlo da doença, sendo possível, em alguns casos, manter a doença tratável durante vários anos.

Avaliar a qualidade de vida em oncologia é uma tarefa complexa. Apesar de existirem escalas e instrumentos validados para este fim, estes apresentam algumas limitações.

“Muitas vezes, não estão validados para a nossa população ou para determinados tipos de patologia. Além disso, estas escalas nem sempre conseguem captar a totalidade da experiência individual de cada pessoa”, refere a médica.

Na prática clínica, a avaliação da qualidade de vida acaba por ser frequentemente mais subjetiva, baseada naquilo que o próprio doente relata. Neste contexto, fatores como autonomia, capacidade para realizar atividades do dia a dia, controlo da dor, equilíbrio emocional e manutenção das relações pessoais tornam-se indicadores fundamentais.

Segundo Catarina Abreu, nas fases mais avançadas da doença, quando os ganhos em sobrevivência podem ser mais limitados, garantir que o tempo vivido é acompanhado de qualidade torna-se um objetivo prioritário.

As prioridades dos doentes tendem a evoluir ao longo do percurso da doença. Inicialmente, a principal preocupação está geralmente relacionada com a sobrevivência e o controlo do tumor.

Contudo, à medida que o tempo passa e os tratamentos se sucedem, muitas pessoas passam a valorizar cada vez mais a ausência de sofrimento, o controlo de sintomas e a preservação da autonomia.

“Inicialmente, as questões que nos colocam estão muito mais relacionadas com o tempo de vida e de sobrevivência. Mas, com o passar do tempo e com a experiência dos tratamentos, muitas pessoas passam a valorizar mais a qualidade do tempo vivido”, explica a oncologista.

Esta mudança reflete uma evolução na forma de encarar a doença e na definição do que verdadeiramente importa para cada pessoa.

Tratar a pessoa implica também ouvi-la e envolver-la nas decisões terapêuticas. A chamada decisão partilhada — em que médico e doente participam conjuntamente nas escolhas relacionadas com o tratamento — assume um papel cada vez mais relevante na oncologia.

Para Catarina Abreu, a comunicação é o elemento central deste processo, permitindo compreender as preferências, os valores e as expectativas de cada doente.

No entanto, existem desafios. Um dos principais é a falta de tempo nas consultas, que nem sempre permite uma comunicação tão aprofundada quanto seria desejável.

“Há pessoas que tomam decisões de forma mais rápida, enquanto outras precisam de mais tempo para refletir”, refere.

Existe ainda uma barreira cultural, que apesar de estar a mudar, continua presente em alguns contextos: a ideia de que o médico deve tomar todas as decisões, sem a participação ativa do doente.

Adaptar a abordagem a cada pessoa — mais diretiva para quem assim prefere ou mais participativa para quem deseja envolver-se nas decisões — faz parte de uma abordagem verdadeiramente centrada na pessoa.

Para que os doentes possam participar de forma mais ativa nas decisões relacionadas com o seu tratamento, é essencial investir na literacia em saúde.

Segundo Nuno Tavares, oncologista no Hospital de São João, no Porto, ainda existe um caminho significativo a percorrer em Portugal neste domínio.

“É importante melhorar a literacia em saúde, para que as pessoas estejam mais informadas e possam ter um papel cada vez mais ativo nas decisões terapêuticas.”

A qualidade de vida, a decisão partilhada e a importância de olhar para o doente como um todo são também alguns dos temas abordados nos primeiros vídeos lançados pela Takeda, no âmbito do projeto “Entre Nós e o Cancro”.

Esta iniciativa de literacia em saúde pretende abordar, de forma simples e direta, alguns dos temas menos discutidos na área da oncologia. Os vídeos são lançados no âmbito do Mês de Sensibilização para o Cancro Colorretal e destinam-se tanto a profissionais de saúde como ao público em geral.

O principal objetivo do projeto é falar sobre o cancro de forma aberta e sem constrangimentos, contribuindo para aproximar profissionais de saúde, doentes e sociedade.

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