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Reativação nuclear no Japão sob a sombra do desastre de Fukushima há 15 anos

Notícias de Coimbra com Lusa | 9 minutos atrás em 10-03-2026

As consequências do desastre nuclear de Fukushima aumentam a incerteza sobre a reativação das centrais nucleares japonesas, a ganhar novo impulso com a guerra no Irão e o aumento do preço do petróleo.

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Na quarta-feira assinalam-se 15 anos do desastre nuclear, ocorrido na sequência do sismo de magnitude 9 e subsequente tsunami de 11 de março de 2011, no qual morreram e desapareceram mais de 20.000 pessoas no arquipélago.

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Na central de Fukushima Daiichi, no nordeste japonês, quatro das seis unidades de reatores ficaram destruídas.

Nas imediações da central, o tsunami deixou uma onda de destruição e as fugas radioativas que contaminaram a água do mar e a terra, tornaram o regresso à normalidade na zona impensável durante anos.

A catástrofe nuclear ainda desperta “raiva, tristeza e vazio”, disse Isuke Takakura, sobrevivente do tsunami e morador da localidade de Futaba, durante um encontro com jornalistas no âmbito de uma visita organizada pelo Ministério do Ambiente.

A operadora da central, a TEPCO, reativou no mês passado a maior central nuclear do mundo em termos de capacidade e trabalha para retomar o fornecimento comercial a 18 de março, enquanto ainda lida com as consequências da catástrofe.

O arranque da unidade seis da central nuclear de Kashiwazaki-Kariwa (KK), na região de Niigata (noroeste), tem levantado alguns receios e um número significativo de detratores.

“Não há nenhum país que coloque centrais nucleares numa zona tão perigosa, onde há muitos terramotos”, afirmou Tamotsu Honma, vizinho da KK e conhecido crítico do projeto.

Os erros que levaram à catástrofe de Fukushima Daiichi desencadearam no Japão uma onda de desconfiança em relação à energia nuclear e levaram as autoridades a rever planos de segurança das centrais do arquipélago.

Sob padrões muito mais rigorosos, Tóquio mergulhou num processo de revisão e desmantelamento das centrais. Atualmente, a maioria dos reatores nucleares do Japão continua fora de serviço.

Se no final de 2010, a energia nuclear representava 25% da combinação energética do país asiático, atualmente representa apenas 10%, lembrou o académico Masahide Takahashi num artigo recente para a Fundação Sasakawa Peace.

De acordo com dados da Organização Internacional de Energia Atómica (OIEA), o Japão reativou atualmente 14 reatores, 19 permanecem com operações suspensas e 27 aguardam desmantelamento.

O reinício da operação na central KK sugere uma “ligeira mudança”, considerou Takahashi.

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, que perturbou o fluxo de petróleo bruto, é um alerta adicional para um país que importa 90% do petróleo do Médio Oriente.

Quinze anos é muito tempo e talvez o resto dos japoneses tenha esquecido a angústia vivida durante a catástrofe nuclear, disse.

“Mas nós, que estamos perto, não podemos esquecer as dificuldades que as pessoas em Fukushima estão a passar”, salientou Takahashi.

A normalidade continua a escapar às zonas mais próximas de Fukushima Daiichi, onde em algumas localidades apenas uma fração das centenas de milhares de residentes retirados depois do acidente regressou.

Na zona, acumulam-se também milhões de metros cúbicos de solo extraído durante os trabalhos de descontaminação que, por lei, devem sair da região em 2045, mas que, por enquanto, ninguém quer receber.

“Um acidente que nunca devia ter ocorrido, aconteceu”, resumiu Takakura, o sobrevivente de Futaba, último município da prefeitura que reabriu aos residentes, depois de as autoridades terem levantado a ordem de evacuação, em agosto de 2022.

Tal como em outros locais próximos, também Futuba continua a tentar recuperar alguma atividade económica.

“Antes do desastre, Futaba tinha cerca de 7.200 habitantes. Agora, 15 anos depois, restam apenas 190 residentes. Essa é a realidade da cidade”, disse Takakura.

Algumas áreas próximas à costa foram classificadas como de uso comercial, estando a ser construído um museu em memória do desastre de 11 de março.

A renovação inclui a construção de um hotel de luxo com vista para o mar e um parque comemorativo que, juntamente com a escola primária de Ukedo, na vizinha Namie, mantém vivas as histórias do pior sismo já registado e do tsunami.

Nesta lenta recuperação, Takakura afirmou que as consequências do desastre de Fukushima não são apenas um problema para o Japão: “São uma realidade para os países que têm centrais nucleares. Quero que em todo o mundo se fale sobre como tratar e eliminar os resíduos nucleares”.

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