Paula Magalhães, de 59 anos, Inês Carvalho, de 36, e Manuel Santos, de 67, têm em comum lidar há mais de uma década com o cancro, recusando que isso os condicione e ousando fixar objetivos para o futuro.
Durante as férias, há 23 anos, Paula descobriu dois nódulos no peito e após uma biópsia no Hospital Tâmega e Sousa soube que tinha cancro, tendo sido reencaminhada para o Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, onde fez a mastectomia e prosseguiu com quimioterapia, contou à Lusa a proprietária de um restaurante em Paredes.
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“A minha capacidade é de 80%, mas trabalhei sempre”, frisou Paula, que à data do diagnóstico tinha “três filhos de sete, seis e quatro anos”.
Pressionada pelo que era então “considerado uma sentença de morte” o diagnóstico de cancro da mama, tomou várias decisões: “paguei tudo aos fornecedores, fiz uma lista de compras do que era preciso comprar para os meninos porque ia começar o inverno, preparei tudo em casa”, descreveu.
Os tratamentos e o facto de “reparar em coisas que nem todos veem” fê-la, todavia, mudar de opinião depressa, encontrando forças nas crianças internadas no IPO
“A parte da pediatria está no meio do caminho que é preciso percorrer para se ir fazer análises, uma TAC, ir para a radioterapia, várias coisas, e eu pensava ao olhar para aquelas crianças que se elas conseguiam, eu tinha que conseguir também”, relatou Paula.
O trabalho também a ajudou nesta equação, contando à Lusa, entre sorrisos, que encontrou “sempre uma maneira de as pessoas rirem daquilo que tinha feito, por exemplo com a cirurgia da reconstrução mamária, que tem episódios engraçados”.
Cinco anos depois, recusou “ter alta” e integrou um “grupo de estudo da genética”, onde esteve cerca de quatro anos, altura em que fez “vários exames, tendo um deles duas manchinhas na pleura do pulmão. Mais dois nódulos…”.
Mais à frente integrou um ensaio clínico de sete anos destinado a “100 mulheres a nível mundial” e foi a “única que aguentou até ao fim”, disse, orgulhosa.
“O medicamento foi um sucesso”, contou Paula revelando que ambas as situações estão hoje estabilizadas.
Questionada sobre qual tinha sido o momento chave, respondeu: “foi quando aceitei que tinha a doença”.
Manuel Santos entrou um dia, há 11 anos, no IPO com queixas no osso ilíaco e saiu de lá com o diagnóstico de dois cancros: no osso e no pulmão. Até então, com 56 anos, jogava futebol nos tempos livres.
Já na Clínica do Pulmão, ficou a saber que o seu cancro era inoperável e “aí desabou tudo”.
“Primeiro foi o choque, mas depois instalou-se uma raiva enorme. Estava sempre a perguntar-me porquê a mim?”, contou à Lusa, assinalando que, logo que pôde, retomou a suas funções de gestão de um espaço desportivo da Câmara Municipal de São João da Pesqueira, no distrito de Viseu.
A gestão do raiva pelo apoio psicológico recebido no IPO e, sobretudo, ter percebido que a evolução da doença não iria ser tão rápida, ajudaram-nos a reconstituir a sua vida, lembrando, ainda assim, que os primeiros anos foram muito duros pois fez “quimioterapia na veia e só a partir de 2019 iniciou a quimioterapia oral” e que “hoje sente-se bem melhor”.
Pelo meio, Manuel tomou a decisão de não deixar de fazer nada de que fosse capaz, conduzindo, por vezes mais do que uma vez por semana, ao longo dos 156 quilómetros que distam da sua vila ao IPO do Porto.
Para além da medicação, “encontra terapia na sua horta, entre a fruta e a hortaliça”, assegurando que só lá não “quando está a chover”.
Inês Carvalho soube há 13 anos que tinha o linfoma de Hodgkin, um cancro do sistema linfático. Descobriu-o quando terminava a licenciatura em Biologia.
“Foi uma espada sobre a cabeça que ganhou peso quando percebi que não pertencia aos 98% de doentes com sucesso no primeiro tipo de abordagem terapêutica”, contou à Lusa.
Seguiram-se três anos em “tratamentos e recidivas muito rápidas”.
Pelo meio, uma autorização especial permitiu-lhe acabar a licenciatura, mas isso, percebeu mais à frente, ficou longe de constituir um sucesso, pois foi-lhe dito que jamais iria poder trabalhar em microbiologia “pois lidar com bactérias que não estariam propriamente catalogadas” implicava um risco para quem tem um linfoma.
Inês nunca deixou de acreditar, nem quando “sete meses após um autotransplante que teoricamente seria uma consolidação da cura, volta-se a descobrir que afinal essa cura não existiu” ou quando recebeu a notícia de que “a sua irmã não podia ser dadora de medula” e, mais tarde, ficou a saber que um possível dador compatível “recusou a dádiva”, recordou.
Entre 2013 e 2014 viveu em casa, sobreviveu a perdas pessoais e perdas familiares, mas também ousou tomar decisões, uma delas foi voltar a estudar, fez a pós-graduação em Turismo ligado com a parte rural e aprendeu outras línguas.
“Voltei à universidade, muito mais resguardada, nem sempre ia às aulas, quando não ia às aulas fazia em remoto, ou ia às aulas e tinha que levar máscara”, descreveu.
No dia 9 de janeiro de 2015 fez o último tratamento no IPO do Porto.
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