Opinião

Quando deixei de acreditar em Deus

OPINIAO | 1 dia atrás em 05-01-2026

Há lugares a que volto sempre: sítios onde as pessoas sorriem e o café é bom. Talvez porque nesses espaços ainda me seja permitido fingir que a esperança não falha. Mas há poucos dias do fim do ano percebi que falha, sim. Espera-se demasiado do outro e quase nada de nós próprios. Dentro dessa redoma, as expectativas criadas em nome da esperança acabam por não coincidir com a realidade.

PUBLICIDADE

publicidade

Sinto-me contaminada por um certo “tanto faz”. A única dúvida que ainda me inquieta é a existência de Deus. Já não nos espantamos com o primeiro amor, nem com os anos que se acumulam ao lado dele. Os filhos chegam ao mundo como se fossem um dever, não um milagre. Penso demasiado para resistir ao meu próprio ceticismo e, ainda assim, não consigo alcançar nenhuma conclusão que acrescente valor à humanidade — suspensa, cansada, exausta de existir.

PUBLICIDADE

Chegar aos oitenta anos parece um milagre breve, insuficiente para contar as histórias vividas e as muitas outras apenas imaginadas. Parece muito ter saúde, amigos, ausência de vícios e uma ansiedade constante por um futuro que só existe nos anúncios de carros eléctricos. Há, aliás, lugares onde se constroem bunkers, como se o futuro já estivesse escrito e fosse aterrador, à espera dos seus ilustres habitantes: os que enriqueceram a alienar e a consumir a alma das massas.

“Massa” da qual faço parte, erudita ou não. Pensando melhor, sei exatamente quando deixei de acreditar em Deus. O receio está apenas em dizê-lo — temo ser mal interpretada. Culpei Deus pelos meus fracassos e esqueci-me de me olhar ao espelho enquanto ainda via bem. Tudo é caro; o custo de vida é um exemplo. Na euforia ilógica do tempo, envelhecemos sem nunca termos pensado em envelhecer, nem na despesa que representaríamos para o Estado se continuássemos vivos.

Quem olha para Deus e agradece pela fome?
Este Deus não é o dos templos, das religiões ou da fé íntima de quem se diz cristão. É um Deus perverso e abstrato, invisível e impotente, que concede ao homem o livre-arbítrio para sair pelo mundo a declarar guerras.

Um Deus que não ouviu a minha prece quando eu acreditava em tudo e que, mesmo sendo quem é, não demonstrou misericórdia. Recentemente, num café a que costumo voltar, estava lá um pregador da palavra, inflamado por uma esperança que o levava a converter os pecadores à sua volta. Dizia ele: — Se Deus não existisse, o homem não existiria.

Ainda bem, Deus existe, mas não é um de nós.

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE