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Professores pedem fim de limite máximo de alunos para abrir turma de Português para Estrangeiros

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Vários professores lamentaram hoje que seja preciso, no mínimo, 10 alunos estrangeiros para se poder abrir uma turma de Português Língua Não Materna (PLNM) na escola, apesar de reconhecerem que existem outros apoios.

Uma das vozes críticas foi a de Ana Madeira, investigadora da Universidade Nova de Lisboa e uma das oradoras convidadas para o webinar “Inclusão de imigrantes e refugiados numa escola para todos”, organizado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

Durante o debate ‘online’ sobre as medidas para acolher e integrar estes alunos, vários professores alertaram, no chat, para o facto de não ser possível criar uma turma de PLNM se não houver um mínimo de 10 estrangeiros na escola.

“A minha esperança é que esta situação venha a mudar”, afirmou Ana Madeira em resposta aos docentes, apelando a uma “maior flexibilidade das normas” e a “turmas, idealmente, mais pequenas”.

A investigadora defendeu que “para os alunos que acabaram de chegar ao país e estão a aprender Português, colocá-los numa turma muito grande não é propriamente o mais eficaz para aprender a língua”, até porque os grupos acabam por ser muito heterogéneos.

Para Ana Madeira, “as turmas não deveriam ter mais de 10 a 15 alunos”, mas a investigadora reconheceu que existem vários constrangimentos que podem impedir a implementação de uma solução ideal.

Nos casos em que não há alunos suficientes para abrir uma turma PLNM, existem outros apoios quer nas aulas de português como fora.

Reconhecendo a importância do PLNM, Ana Madeira apontou alguns aspetos que poderiam ser melhorados, como manter o apoio de PLNM aos alunos de nível avançado, já que muitas vezes ainda não estão preparados para frequentar a disciplina de Português.

“Um aluno não nativo precisa de cinco anos para conseguir desenvolver competências”, explicou a especialista, sublinhando que “apenas dois anos não deverão ser suficientes”.

O tema da “Inclusão de imigrantes e refugiados numa escola para todos” surge numa altura em que Portugal tem já mais de dois mil estudantes refugiados provenientes da Ucrânia nas suas escolas.

Estes alunos podem optar por continuar os estudos no sistema de educação ucraniano através de aulas ‘online’, mas a aprendizagem do português é obrigatória.

O plano do ensino da língua prevê uma integração progressiva dos alunos no currículo, o que Ana Madeira considera ser uma “medida potencialmente vantajosa”, mas alerta para alguns riscos, como as crianças terem menos exposição à língua, podendo atrasar a sua aprendizagem.

Ana Madeira lembrou ainda que é preciso criar condições que permitam a implementação das medidas previstas no PLNM tendo em conta os diferentes contextos escolares, sendo “necessário reduzir as assimetrias existentes entre agrupamentos e regiões”.

A investigadora salientou, por outro lado, o facto de em Portugal se valorizar as línguas maternas dos alunos, explicando que traz benefícios cognitivos, linguísticos, educativos, individuais e sociais.

“Há muito poucos países da Europa que desenvolvem programas de manutenção de língua materna dos alunos”, destacou, defendendo que é preciso adotar medidas que valorizem a língua materna dos alunos.

Nesta difícil missão, a solução poderá passar por estabelecer parcerias com entidades externas, envolver as famílias ou disponibilizar livros e recursos nas bibliotecas escolares.

Ana Madeira apontou outro problema identificado em Portugal e noutros países, que é a formação de professores no domínio do ensino do PLNM, mas também na gestão da diversidade em contextos escolares multilingues e multiculturais: “É importante reforçar a oferta formativa inicial e formação continua” de docentes, defendeu.

A presidente da Câmara Municipal da Amadora, Carla Tavares, também presente no encontro, revelou a experiência do município a lidar com os desafios da diversidade.

“Sinto que as escolas aqui na Amadora são as que mais estavam preparadas para receber estes alunos”, disse, recordando que nas escolas da Amadora se ouve falar em várias línguas.

Carla Tavares falou do trabalho realizado nas suas escolas, mas defendeu que a responsabilidade da inclusão tem de estar para além dos serviços de educação.

A conferência contou também com o relato de um aluno sírio do ensino superior e uma aluna do secundário.

Leonesa Wina tem 18 anos, está há quatro em Portugal, e é aluna do 12.º ano do curso técnico-profissional de turismo.

Quando chegou, começou a estudar numa escola, onde ninguém lhe falou do PLNM: “Não percebia o que os professores ensinavam. Foi a associação de estudantes do meu bairro que me ajudou a conseguir perceber melhor o Português e a conseguir integrar-me na sociedade portuguesa. Uma das regras da associação era não se poder falar crioulo e isso ajudou-me bastante”, contou.

A professora Lina Marques, da Escola Secundária de Camões, lembrou que “os alunos de fora são integrados de forma quase automática no sistema de ensino português, quer saibam ou não português”, o que por vezes pode ser muito problemático.

Lina Marques deu como exemplo o caso de uma aluna que chegou ao país e à escola no terceiro período de aulas e que depois de reprovar dois anos seguidos acabou por abandonar os estudos sem terminar o ensino obrigatório.

“Os professores deviam ser mais atenciosos e pacientes para com os emigrantes. Deviam ajudá-los a perceber melhor as coisas e não a desmotivá-los, porque isso não é bom para ninguém”, defendeu Wina.

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