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Praia da Tocha: serenidade entre o mar e a terra (com vídeos)

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De uma pitoresca aldeia de pescadores a uma estância balnear de qualidade, a Praia da Tocha, no concelho de Cantanhede, tem feito um caminho de equilíbrio. O Notícias de Coimbra percorreu o areal, a marginal, entrou nos palheiros, sentou-se na esplanada para lhe contar o que tem esta terra onde os pescadores da tradicional arte xávega partilham as suas histórias com os turistas de sempre, mas também com os novos inquilinos: os amantes do surf que chegam de todo o mundo. 

Se pudéssemos escolher um prato que representasse a Praia da Tocha seria, sem dúvida, a sardinha na telha com batata assada na areia. Esta iguaria tradicional, que provámos no restaurante do Parque de Campismo, encerra toda a mística de uma terra que vive e viveu sempre do mar e da agricultura, que nos dá o azul das ondas e o verde da floresta, que tem das areias mais finas e límpidas de toda a costa portuguesa e água de excelente qualidade. Está tudo ali e pode ser provado e saboreado, garfada a garfada.

Neste dia que escolhemos para descobrir os encantos da Praia da Tocha, os homens não foram ao mar. “Está bravo”, anunciou-nos António Moço, 87 anos, um dos proprietários da Companha Pouca Sorte, uma das duas que aqui trabalham. A pesca já teve melhores dias, acrescenta, sentado no armazém das redes, na companhia dos pescadores. É o preço do gasóleo, é não ter a quem vender o peixe, mas esta praia sem a arte xávega “não é praia”. “É uma arte que atrai muitos turistas”, explica o antigo carteiro. “Vêm ver o peixe sair da rede, alguns compram, outros vêm aqui almoçar mais a gente. Estamos sempre de portas abertas para quem quiser trabalhar e comer”, remata.

Noutros tempos, as redes eram puxadas por turistas e no final do trabalho feito cada um recebia uma porção de peixe – “um punhado ou um quilo, conforme o que desse, e o resto era para a companha”, recorda António Moço, para logo dizer que agora está tudo “mais sofisticado”, com os tratores.

A arte xávega continua a ser a maior atração desta praia que é “muito limpa, muito sossegada e não tem roubalheiras”. Quem o garante é António Moço que, sem saber, é ele próprio um cartaz turístico. “Se isto [a arte xávega] acabar, a praia também fica logo sem valor”, assegura Judite Gonçalves, 60 anos, 20 dos quais a dirigir a Pouca Sorte, depois do mar lhe ter roubado o pai, mesmo ali quase na areia. “Sou a única filha, tive de vir”, conforma-se, enquanto lhe pesam as dores “na coluna e nas ancas de tanto andar pela areia”. Além de proprietária, é ela quem assegura a venda do peixe. Por aqui, como em quase toda a costa, é assim: os homens apanham o peixe, as mulheres vendem-no.

Ali ao lado, a aproveitar a folga que o mar lhe deu, está António Patrão, com 72 anos está rijo e faz frente às vagas grandes. Ainda há dois meses viu o barco desaparecer na água, mas resistiu. “Correu tudo bem felizmente, ninguém se aleijou”, simplifica a vivência que podia ter terminado em tragédia. “É uma responsabilidade muito grande. É preciso ter mãozinhas e olhos para trabalhar com este mar”, reconhece. 

“Ando ao mar desde a idade de dois anos. Andava aos pés do meu pai que ele era mestre”, recorda Patrão que passou pela restauração, andou nas ambulâncias, foi nadador salvador. “Cheguei a andar muito tempo com uma gravata ao pescoço, mas não é para mim”, frisa. Nascido na Praia de Mira, tem o coração na da Tocha. “É única. É um sossego. Nasceu do nada e nasceu com condições. É mesmo bom, bom, bom e parece que quem escolhe esta praia é pessoal bom”, conta-nos. 

“Desde pequena que vejo as transformações deste local. Primeiro era essencialmente para pescadores e suas famílias, depois começou a abrir-se ao turismo local, principalmente de Cantanhede e foi tomando outras formas”, diz-nos Alice Andrade, proprietária do café Ti Xico, internacionalmente conhecido como “Piolho”. A empresária acredita que a Praia da Tocha está a entrar numa terceira fase de evolução, embora se mantenha “familiar” está “aberta a outro tipo de turista, estrangeiro e ligado ao surf”. Não duvida que isso traz “outra vida” à aldeia, mas gostava que esta estivesse mais “adaptada em termos turísticos, com lugares de lazer e diversão”. 

Se é a subida desse degrau para receber mais turistas que muitos procuram, é também isso que mais temem. “Assusta-me um bocado”, confessa Alice Andrade, que não quer que se perca o “lado intimista”. Também o artesão Licínio Oliveira acredita que é esse o segredo deste local. “Isto é um paraíso, principalmente de inverno, cria-nos um espírito criativo fora do vulgar. Para quem quer ser feliz, esquecer a ansiedade, problemas psiquiátricos esta é a melhor cura”, fala-nos enquanto faz réplicas em madeira de palheiros e barcos de arte xávega, que hão de correr muito, sobretudo a ajudar os emigrantes a matarem as saudades.

Helena Teodósio, presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, explica que há que fazer o crescimento de “forma contida e equilibrada”. Considerando que a Praia da Tocha “é cada vez mais de referência”, acredita que isso se deve à “aposta de não haver excessos urbanísticos”. “Conseguiu-se salvar a praia no tempo certo”, sustenta a autarca, falando de “uma praia com bom aspeto, serena, que se quer dedicada às famílias”.

Destacando a renovação de todos os passadiços e das condições de acesso, para além da aposta na renovação do parque desportivo, e nas acessibilidades para quem tem mobilidade reduzida, Helena Teodósio fala de projetos que sonha ver ali implementados,  como um skate parque ou até uma piscina ao ar livre. Mas há uma regra: tem de ser tudo “conjugado, pensado” e há que manter “a calma e serenidade para descansar” neste lugar ancestral.

É essa paz que procuram muitos dos que se instalam no Parque de Campismo, que esgotou a lotação no último fim de semana. “Este ano foi um ano excecional. No pós-covid, as pessoas voltaram a acampar e há muitas pessoas a iniciar a experiência do campismo”, informa Joaquim Cipriano, que recebe os campistas há vários anos. O espaço está a 300 metros da praia, alberga as concessões de duas escolas de surf, conta com piscina, lavandaria, mini-mercado e outras comodidades. Destaca-se o restaurante e os seus grelhados a carvão. “Temos muita gente que aqui vem sobretudo por causa do frango de churrasco e do peixe, mas também pela sardinha na telha”, conta-nos Paulo Dinis, gerente, sem nunca largar a grelha. 

“A Praia é muito sossegada e o local ideal para deixar o carro e pegar nos chinelos”, diz Joaquim Cipriano, dando conta que os campistas chegam “de norte a sul do país, mais da região de Viseu, Santa Comba Dão, Coimbra”, já os estrangeiros vêm da Alemanha, Espanha e França. 

O Parque de Campismo é, a par do alojamento local, a única oferta para quem quer pernoitar na Praia da Tocha, depois de ter falhado a instalação de uma unidade hoteleira de cinco estrelas e cujos promotores e a construtora se encontram há vários anos em tribunal por alegada fraude relacionada com apoios do Estado.

Ao lado dos pescadores da arte xávega e da nova enchente de surfistas, vão nascendo projetos, de gente da terra, que quer vê-la mais dinâmica. Foi o caso do Love, aberto há 11 anos, um dos bares da praia que já trouxe celebridades até este areal e continua a ter, para muitos o melhor, por do sol da região. É também o caso do estudante Tiago Vinagreiro que ama esta praia e a tem ajudado a dinamizar com a organização de eventos desportivos.  Apesar dos seus 20 anos sonha ter aqui uma casa e “se Deus quiser cá gozar a reforma!”.

É neste equilíbrio entre o querer ter mais agitação e manter o sossego que esta praia encanta e conquista quem a visita e a consegue saborear, como quem se delicia com uma sardinha assada na telha. 

Veja o direto NDC com o dono da Companha Pouca Sorte, António Moço:

 

Veja o direto NCD com Judite Gonçalves da Companha Pouca Sorte:

Veja o direto NDC com António Patrão, mestre do Pouca Sorte:

Veja o direto NDC com Joaquim Cipriano, do Parque de Campismo da Praia da Tocha:

Veja o direto NDC da grelha do restaurante do parque de campismo, com Paulo Dinis:

Veja o direto NDC com a arte de Licínio Oliveira:

Veja o direto NDC no Love Praia da Tocha:

Veja o direto NDC com Tiago Vinagreiro: 

Veja o direto NDC no Piolho, com Alice Andrade:

Veja o direto NDC com Helena Teodósio, autarca de Cantanhede:

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