A Dinamarca vai a votos a 24 de março, em plena crise diplomática com os Estados Unidos, mas portugueses em Copenhaga notam o país calmo perante os debates sobre defesa e aumento da despesa militar que estão a marcar a campanha.
PUBLICIDADE
O debate para as eleições legislativas antecipadas na Dinamarca tem-se focado na economia e serviços sociais (nomeadamente as longas listas de espera na saúde), assim como nos gastos com defesa, refletindo eventos como a invasão russa da Ucrânia e o interesse dos Estados Unidos no território autónomo dinamarquês da Gronelândia.
PUBLICIDADE
“A Dinamarca precisa de se rearmar e investir mais nas Forças Armadas. A minha impressão é que todos estão de acordo que é preciso. A questão é como e onde é que se vai buscar o dinheiro. O bloco vermelho [a esquerda] quer taxar os ricos, com o chamado imposto sobre as fortunas”, explica à Lusa Vicente Henriques, um engenheiro de 31 anos, na Dinamarca há uma década.
“A conscrição aqui tem aumentado muito”, conta Alex Alexandre, luso-dinamarquês de 27 anos, na Dinamarca desde os 8.
O sistema baseia-se na adesão voluntária, passando à conscrição obrigatória, por sorteio, caso não haja voluntários suficientes. O tempo de serviço passou dos 4 aos 11 anos, numa mudança da lei pela mão do atual governo, em 2024.
“Há tantos voluntários que é raro uma pessoa ser obrigada a fazer o serviço militar”, diz Alex, que trabalha na televisão pública DR.
Num debate entre a primeira-ministra, Mette Frederiksen, e o seu ministro da Defesa, Troels Lund Poulsen, ambos candidatos à chefia do Governo, Poulsen anunciou que quer duplicar o número de recrutas nas Forças Armadas dinamarquesas, uma proposta prontamente apoiada pela primeira-ministra.
Mas, apesar do crescente investimento na defesa, Vicente diz que “não há receio no sentido de que vai haver uma guerra, mas há uma consciência de que é preciso a Europa ser autónoma no que toca às Forças Armadas e não estar só dependente dos Estados Unidos”.
“Não há pânico. Há algumas pessoas que têm receio, mas isso é uma coisa normal”, resume também Alex.
Para além da defesa e economia, a imigração permanece como uma das mais importantes discussões políticas no país e esta campanha não é exceção.
A Dinamarca é um dos países europeus com mais barreiras à imigração e à obtenção de cidadania, um modelo que a vizinha Suécia, por exemplo, usa agora como inspiração às mudanças implementadas pelo governo de direita e o seu apoiante parlamentar da extrema-direita. Na Dinamarca, contudo, o discurso duro em relação à imigração é transversal ao espectro político, excetuando a esquerda mais radical.
“Neste momento, o partido de centro-esquerda que está no Governo é a favor do controlo apertado da imigração, sobretudo de fora da União Europeia”, conta Vicente Henriques.
A comunidade portuguesa na Dinamarca tem crescido nos últimos 20 anos, atingindo os 4987 residentes em 2025, de acordo com dados do instituto de estatística dinamarquês. Apesar disso, representa apenas cerca de 0,1% da população do país.
“O que vemos em Portugal, com o Chega, passou-se na Dinamarca há muitos anos”, conta Luís Valente Madsen, com uma experiência mais longa no país.
O professor de educação especial, de 60 anos e na Dinamarca há 44, admite que existe discriminação, especificamente discriminação religiosa, mas diz que “há problemas das duas partes”.
O português conta também que o discurso político se radicalizou. “Há pelo menos três partidos de extrema-direita, com muitos seguidores, que dizem coisas sobre os imigrantes que era impensável dizer há uns anos”, comenta.
Os dinamarqueses votam a 24 de março em eleições antecipadas, marcadas pela actual primeira-ministra Mette Frederiksen no final de fevereiro.
A Dinamarca é atualmente governada por uma coligação centrista entre os Social-Democratas, de Frederiksen, o Partido Liberal e os Moderados.
Os Sociais-Democratas lideram as sondagens, mas a Dinamarca tem tradição de governos de coligação e a constelação governativa pode adquirir várias formas.
PUBLICIDADE