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Portugueses gastam €70 milhões por dia em apostas online: até onde pode crescer este mercado?

PUB | 2 horas atrás em 23-02-2026

Num país com menos de 11 milhões de habitantes, o volume de apostas online em Portugal continua a surpreender: em média, movimentam-se cerca de 70 milhões de euros por dia. Estes números refletem não apenas uma mudança nos hábitos de consumo de entretenimento digital, mas também um crescimento sustentado de um setor que tem afirmado a sua relevância económica. À medida que o comportamento dos utilizadores se adapta à ubiquidade das plataformas digitais, crescem também tanto o número de jogadores como as receitas associadas.

A Direção-Geral de Regulamentação e Inspeção de Jogos tem acompanhado de perto esta expansão. No final de 2023, existiam cerca de cinco milhões de contas registadas em operadores de jogo online licenciados, um aumento expressivo comparando com os anos anteriores. A questão que se coloca agora é: poderá este mercado continuar a crescer? E se sim, em que moldes será esse crescimento compatível com os interesses do Estado e da economia nacional?

A base de utilizadores continua a expandir-se

O crescimento do número de jogadores em plataformas digitais tem sido particularmente evidente nos últimos dois anos. Para lá do jogo em si, há uma tendência clara de diversificação dos formatos disponíveis, com novos serviços a surgirem regularmente. Entre apostas desportivas, roletas virtuais e competições de poker, o consumidor português parece cada vez mais disposto a experimentar novas formas de jogo digital.

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Este ambiente de oferta variada inclui também os cassinos online, infraestrutura que se tem tornado altamente competitiva em termos de inovação e experiência de utilizador. É nesse contexto que os cassinos novos conseguem atrair públicos jovens e digitalmente fluentes, frequentemente através de bonificações de adesão ou experiências imersivas. A procura constante por novidades, especialmente em mercados como o brasileiro e o português, tem levado os operadores a aperfeiçoar as suas plataformas técnicas e a investir fortemente em marketing.

A crescente sofisticação das interfaces, aliada à facilidade de aceder a estas plataformas via dispositivos móveis, contribui para a fidelização de utilizadores e prolonga o seu tempo médio de interação. Ao mesmo tempo, verifica-se uma tendência para o cruzamento entre jogos de casino e elementos de gaming tradicional, o que amplia ainda mais o leque de públicos interessados.

O impacto nos cofres do Estado

Se o crescimento da indústria de apostas online tem impactos claros na cultura de consumo digital portuguesa, também tem efeitos substanciais no erário público. Em Portugal, as receitas fiscais provenientes do jogo online são consideráveis. O regime legal atual estabelece taxas que variam consoante o tipo de atividade: no caso das apostas desportivas à cota, o imposto incide sobre o montante das apostas realizadas; já nos jogos de fortuna ou azar, aplica-se sobre a receita bruta dos operadores.

Em 2023, as receitas do Estado oriundas do setor ultrapassaram os 150 milhões de euros, segundo dados oficiais. Com os volumes atuais de apostas, é expectável que esse valor se mantenha em crescimento. Ainda assim, a equação entre arrecadação fiscal e equilíbrio regulatório continua a ser delicada. A discussão sobre uma eventual revisão legislativa, com o objetivo de simplificar normas e adaptar a tributação à realidade do mercado, tem vindo a ganhar tração.

Tendências regionais e padrões de jogo

Os dados mais recentes revelam uma crescente penetração do jogo online em zonas do interior do país, contrariando a ideia de que esta atividade seria predominantemente urbana. Este fenómeno acompanha a evolução da cobertura da internet de alta velocidade e a crescente familiaridade da população com meios digitais.

Curiosamente, os padrões de jogo tendem a variar consoante a faixa etária. Enquanto os utilizadores entre os 30 e os 45 anos privilegiam as apostas desportivas e o poker, os mais jovens demonstram maior interesse por jogos rápidos, com forte componente visual e integração social. Por outro lado, as faixas etárias mais elevadas mantêm um perfil mais conservador, preferindo jogos de sorte tradicional, como a roleta ou o blackjack digital.

Outra tendência notável prende-se com o aumento do número de sessões curtas, mas frequentes, sobretudo em dias de semana. Tal padrão poderá refletir uma integração natural do jogo online nas rotinas quotidianas de muitos utilizadores, em sessões de poucos minutos entre tarefas.

Crescimento sustentado ou bolha de oportunidade?

Embora os indicadores apontem para um mercado em expansão, nem todos os observadores concordam quanto à sua sustentabilidade. O ritmo de crescimento de novas contas tem vindo a abrandar ligeiramente nos últimos trimestres, sugerindo alguma saturação nos públicos tradicionais. É neste contexto que os operadores investem cada vez mais na diferenciação de produtos, como apostas ao vivo, jogos com dealers reais e experiências em realidade aumentada.

A internacionalização das plataformas também oferece novas possibilidades. Com operadores licenciados em múltiplos países de língua portuguesa, Portugal acaba por beneficiar de um ecossistema partilhado, tanto em termos tecnológicos como de marketing, com outras jurisdições, como o Brasil, onde a regulação do setor entrou recentemente numa nova fase. Essa sinergia pode contribuir para prolongar o dinamismo do mercado português, embora obrigue igualmente os reguladores a uma vigilância apertada das práticas transfronteiriças.

Um setor cada vez mais tecnológico

Tecnologia e análise de dados estão no centro da operação dos principais operadores de apostas online. Ferramentas de inteligência artificial são hoje utilizadas na personalização das ofertas, bem como na detecção automática de comportamentos de risco ou de fraude. O objetivo é otimizar não apenas a performance financeira, mas também a experiência de utilizador.

Nesse sentido, o investimento em software proprietário e em parcerias com fornecedores especializados tem aumentado consideravelmente. Em contextos mais concorrenciais, como o europeu, a vantagem tecnológica pode traduzir-se claramente em quota de mercado. Portugal está já inserido nessa lógica competitiva, com operadores nacionais e internacionais a disputarem a atenção dos utilizadores através de aplicações móveis cada vez mais refinadas.