Portugal é o país europeu com maior percentagem de mulheres nas equipas de inventores, segundo um estudo internacional que alerta, no entanto, para a “fuga de talentos” femininos e consequente sub-representação nas descobertas patenteadas e `startups´.
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O relatório publicado hoje pela Organização Europeia de Patentes (OEP) mostra que há cada vez mais mulheres inventoras com pedidos de patentes, mas continuam a ser uma minoria: Em Portugal, em cada 100 inventores, apenas 30 são mulheres (29,3%). Na Europa, a média desce para 13,8%.
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Portugal surge em primeiro lugar, seguido pela Espanha, numa lista de 22 países, em que a Alemanha, a Hungria e a Áustria aparecem nos últimos lugares, com taxas a rondar os 10%, segundo o relatório “Promovendo as mulheres nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) – Uma avaliação baseada em dados sobre a disparidade de género no ecossistema de inovação europeu”.
Nas últimas décadas, a presença feminina nas equipas inventivas tem crescido, mas “muito lentamente”, defende Cristina Margarido, examinadora de patentes da OEP.
O estudo alerta para uma “fuga de talentos”, já que há cada vez mais mulheres em licenciaturas das áreas STEM que vão desaparecendo à medida que se avança na carreira. Entre as doutoradas, são poucas as investigadoras que registam patentes ou criam empresas tecnológicas (startups).
“Este padrão sugere que as mulheres enfrentam barreiras cada vez mais pronunciadas ao avançarem em carreiras ligadas às STEM e impulsionadas pela tecnologia”, sublinha o presidente da OEP, António Campinos.
Para António Campinos, “a Europa não pode dar-se ao luxo de deixar o talento à margem”, até porque existe um potencial de inovação que fica por explorar.
A ideia é corroborada por Cristina Margarido, que ficou surpreendida com a elevada percentagem de startups exclusivamente masculinas: “Temos muitos grupos mistos a fazer investigação e desenvolvimento, mas depois os fundadores de empresas tecnológicas são quase todos homens”.
O estudo diz que apenas um em cada dez fundadores é do sexo feminino. Também aqui Portugal e Espanha se destacam pela positiva: Em Espanha, 19,2% das startups têm mulheres entre os fundadores e em Portugal são 15,7%.
Na Europa, apenas 13,5% das startups com patentes contam com, pelo menos, uma mulher fundadora. Todas as outras – mais de 85% – são compostas apenas por homens.
Cristina Margarido diz que o potencial inventivo das mulheres é comparável ao dos homens, mas as suas patentes têm muito menos reivindicações e menos citações.
Cientistas premiadas e entrevistadas para o estudo admitiram que “à medida que vão subindo, não têm quem as incentive nem quem as promova”, contou.
O relatório aponta também para barreiras no momento de abrir uma empresa. A equipa que realizou o relatório ouviu histórias de mulheres que contaram que, quando andavam à procura de financiamento, eram “muitas vezes a única mulher na sala”.
“Será mais provável aos nove homens que ali estão darem apoio financeiro a uma startup representada por homens com quem têm mais em comum”, explicou Cristina Margarido.
Além disso, em algumas áreas, como a biomedicina, as mulheres desenvolvem estudos com maior propensão a resolver problemas ligados às mulheres, enquanto as patentes de homens tendem a focar-se em problemas masculinos.
Por isso, lembrou a porta-voz da OEP, uma equipa só de homens pode desenvolver um produto com um viés de género porque há problemas que lhes são invisíveis e por isso não os resolvem, porque para eles não existem.
Um caso que se tornou carismático foi o dos bonecos usados para os testes de carros. No início, usavam-se apenas modelos masculinos até se perceber que as mulheres tinham muito mais problemas nos acidentes de automóvel porque não tinham sido feitos testes com modelos femininos.
Os números mostram que a realidade europeia tem vindo a mudar, havendo cada vez mais mulheres entre os cientistas e fundadores de startups.
A cientista portuguesa Elvira Fortunato disse à Lusa notar essa evolução nos corredores das universidades e nos laboratórios, uma mudança agora esplanada em números no relatório.
“A percentagem de pedidos de patentes europeias que nomeiam pelo menos uma mulher como inventora aumentou de menos de 4% por volta de 1980, para 21,6% em 2019 e 24,1% em 2022”.
Atualmente, as mulheres estão muito mais presentes na investigação das áreas da indústria farmacêutica (34,9%), biotecnologia (34,2%) e química alimentar (32,3%).
Por outro lado, nas áreas das máquinas-ferramenta (5,7%), processos básicos de comunicação (5,5%) e elementos mecânicos (4,9%) a sua presença continua a ser quase residual, segundo o estudo.
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