Região
População de Pedrógão Grande obrigada a desenrascar-se após três dias sem energia e comunicações
Imagem: PAULO NOVAIS/ LUSA
A população de Pedrógão Grande continua pelo terceiro dia consecutivo sem energia elétrica e comunicações, e queixa-se de falta de apoio das entidades públicas, sobretudo na freguesia da Graça, a mais afetada do concelho pela depressão Kristin.
“Ninguém nos diz nada, nem da Câmara nem da Proteção Civil”, lamentou Maria da Conceição à agência Lusa, proprietária de uma oficina parcialmente destruída, na localidade de Outão, na freguesia da Graça, distrito de Leiria.
Com o olhar atento nos trabalhos de remoção das chapas retorcidas da oficina de automóveis, esta mulher de 68 anos diz que tem filhos em Lisboa e Leiria, e que não sabe “se estão bem ou mal”.
“A Proteção Civil é muito poucochinha. Reparem que o próprio edifício da Câmara Municipal não tem gerador lá dentro”, apontou Carlos Carvalho, da Mó Pequena, freguesia de Pedrógão Grande, lamentando que ninguém dê informações.
Para contactar a família, teve de se deslocar a Figueiró dos Vinhos, que só teve comunicações desde o final de quinta-feira.
“Sei que o presidente da Câmara anda por aí, mas sem meios de comunicação nada funciona”, enfatizou Carlos Carvalho, que considerou esta passagem da depressão Kristin mais “impactante” do que os incêndios de 2017, que fustigaram severamente o concelho de Pedrógão Grande.
Numa passagem pela freguesia da Graça, a reportagem da agência Lusa constatou que a maioria das habitações foi afetada, com maior ou menor dano, e equipamentos públicos, como o parque de merendas ou o posto de saúde, foram fortemente atingidos.
Sem energia elétrica, são os geradores que vão mitigando os efeitos do temporal, como no caso da habitação da mãe de Tânia Francisco, em Casal Ferreiros, que beneficia de um equipamento do avô, que também alimenta a casa do padrinho.
“O gerador alimenta à vez as três casas, para que as coisas que estão nas arcas não se estraguem”, salientou a jovem, que viu os ventos ciclónicos destruírem o telhado do alpendre que cobre a churrasqueira e o escritório.
A água regressou na manhã de hoje às torneiras, depois da falha no abastecimento na quarta-feira, mas as comunicações tardam em voltar “e é horrível não saber de nada nem de ninguém”.
Na Marinha, também freguesia da Graça, Mário Paiva de Carvalho, de 83 anos, não escondeu a frustração pelos estragos enormes provocados pelo mau tempo na sua oficina, na habitação e em vários anexos.
“Estou sozinho com o meu filho a fazer o que posso. Ainda nem fui capaz de ter ideia dos prejuízos que sofri”, disse o octogenário, triste, em frente a um sobreiro de grande porte arrancado pela raiz, que por pouco não atingiu uma camioneta ligeira.
Com vários geradores em casa, que já o tinham “salvo do inferno” das chamas dos incêndios de 2017, Mário Carvalho não sente o problema da falta de energia, mas lamentou que ainda “ninguém dos poderes públicos] tenha aparecido para dizer ou perguntar alguma coisa”.
“Sem telhado na oficina não tenho condições para trabalhar e vou ter de rejeitar trabalho”, lamentou.
Nos últimos dias, a luz das velas é o que tem valido a Sandra Jacinto, de 43 anos, residente na Atalaia Fundeira, que disse não ser fácil viver sem energia elétrica e comunicações.
“Na minha casa tenho um problema agravado porque é tudo elétrico. Para tomar banho tenho de ir a casa da minha mãe e para cozinhar utilizo um pequeno fogão a gás, além de não poder ligar o aquecimento”.
Mais à frente, na Atalaia Cimeira, Manuel Inácio, de 83 anos, tentou comprar um gerador “em dois ou três sítios”, mas não conseguiu adquirir nenhum aparelho e está preocupado com os produtos na arca frigorífica que se vão estragar.
Por ali, também ainda não apareceram representantes das entidades que gerem o território e a mulher Maria Rosa do Carmo deixou escapar que a “Câmara não quer saber” deles.
“Tenho a arca cheia e vai-se estragar tudo, é uma miséria”, queixou-se a mulher de 82 anos, que juntamente com o marido lamentam não poder ligar o aquecimento para os quartos.
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho.
Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais do temporal.
Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade entre as 00:00 de quarta-feira até às 23:59 de dia 01 de fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.