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“Perdi quase tudo… só não perdi a casa”: A dor que fica depois do incêndio arrasar Mourísia

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 52 minutos atrás em 17-03-2026

O vento voltou a marcar presença na pequena aldeia de Mourísia, no concelho de Arganil, exatamente uma semana após a visita do Presidente da República, António José Seguro.

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Mas desta vez, não há comitiva, nem movimento — apenas ruas vazias, silêncio e sinais ainda bem visíveis da destruição causada pelos incêndios.

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Entre os poucos habitantes permanentes — cerca de uma dezena — está Arménio Costa, de 67 anos, que viveu na aldeia toda a vida.

“Andei a combater o incêndio. Foi terrível. Isto cada vez é pior”, relata, recordando o dia crítico de agosto em que o fogo cercou completamente a aldeia. Segundo o residente, a mudança repentina do vento ao meio-dia transformou o cenário num verdadeiro inferno: “Ficámos completamente cercados. De cima para baixo, de baixo para cima.”

Apesar da gravidade, critica a ausência de meios aéreos: “Não se viu um helicóptero nem nada sobre a povoação.”

Os danos foram extensos. Perdeu culturas, videiras, palheiros e maquinaria agrícola: “Perdi o motocultivador, o pasto para os animais… só não perdi a casa.”

Apesar de já se ter candidatado a apoios, continua sem respostas: “Candidatei-me, estou à espera. Muita burocracia.” A situação contrasta com 2017, quando, segundo o próprio, os apoios chegaram mais rápidos.

A visita de António José Seguro trouxe alguma esperança, mas sem efeitos concretos até agora: “Vamos ver o que é que vai sair”, diz Arménio, cético.

O antigo trabalhador do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) alerta ainda para o abandono da floresta: “Não há plantações, não há nada… os pinheiros arderam novamente, fica sem nada.”

Mourísia enfrenta também um problema estrutural: a desertificação humana. “Vivem aqui 10, 11 pessoas… talvez 12”, explica.

O acesso a serviços básicos é limitado. Uma ambulância demora cerca de 30 minutos a chegar, e os cuidados de saúde dependem de deslocações até Arganil. Ainda assim, mantém-se resiliente: “Sempre aqui vivi, sempre trabalhei aqui na floresta.”

Especialistas apontam fatores comuns: alterações climáticas, abandono rural e falta de prevenção estrutural.

Uma semana depois da atenção mediática e política, esta aldeia do concelho de Arganil voltou ao silêncio.

“Agora há menos passarada… as aves arderam, não têm onde fazer os ninhos”, conclui, resumindo num só pensamento a dimensão da perda — humana e ambiental.

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