Portugal

Pais que “resolvem tudo” estão a destruir a resiliência dos filhos

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 53 minutos atrás em 27-03-2026

O fenómeno conhecido como parentalidade-helicóptero — em que os pais intervêm constantemente para resolver os problemas dos filhos — está a ser associado a níveis mais altos de ansiedade e menor resiliência nas crianças, alerta a investigação.

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A análise foi divulgada pelo SOL.

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O conceito não é novo, mas os estudos recentes reforçam que a intervenção contínua, mesmo com boas intenções, pode impedir que a criança desenvolva competências fundamentais para enfrentar desafios. “Não se trata de ser duro ou negligente, mas de aprender a ser a rede, não a mão”, explicam os especialistas em desenvolvimento infantil.

Um exemplo simples é o gesto quotidiano de um pai ou mãe que ajuda uma criança a abrir um pacote de bolachas ou a resolver rapidamente um conflito escolar. Embora pareça carinho ou eficiência, este tipo de intervenção frequente transmite, implicitamente, que a criança não é capaz de gerir as suas próprias dificuldades.

Segundo uma revisão sistemática publicada na Frontiers in Psychology, analisando 38 estudos sobre o tema, existe uma relação consistente entre parentalidade-helicóptero e sintomas de ansiedade e depressão nos filhos. Outro estudo, publicado em 2024 na Trends in Psychology, concluiu que filhos de pais com níveis elevados deste estilo parental tendem a apresentar menor resiliência, pois não têm oportunidade de aprender a lidar com frustrações por si próprios.

Especialistas destacam que a frustração controlada é essencial para o desenvolvimento de competências emocionais. A metáfora usada pela International School Parent ilustra bem: segurar a mão da criança enquanto caminha numa corda bamba garante que chegue ao outro lado, mas não cria os circuitos neurológicos necessários para que o consiga fazer sozinho na próxima vez.

Em Portugal, este desafio é ainda mais evidente devido à forte cultura de cuidado familiar. Avós, familiares e professores tendem a intervir rapidamente, reduzindo o espaço para que a criança experiencie frustração e desenvolva autonomia. Psicólogos clínicos reportam que crianças portuguesas chegam cada vez mais ao consultório com dificuldade em lidar com o erro, aceitar um “não” ou gerir a pressão escolar.

A ciência sugere estratégias concretas para os pais: validar sentimentos, sem resolver imediatamente o problema, fazer perguntas antes de dar respostas, estimulando a criança a encontrar soluções, celebrar a tentativa, não apenas o resultado, modelar a frustração em voz alta, mostrando como enfrentar desafios e recuar gradualmente, permitindo que a criança assuma pequenas responsabilidades de forma segura.

Estudos indicam que apoiar a autonomia infantil está diretamente relacionado com maior bem-estar psicológico, reforçando que a presença dos pais não significa intervenção constante, mas confiança na capacidade da criança de se superar.

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