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Coimbra

Opinião: A tirania do automóvel e o absurdo da gestão urbana na Solum

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No que à mobilidade urbana colectiva diz respeito, coexistem geralmente duas teorias: uma afirma que é necessário, em primeiro lugar, restringir o uso do automóvel privado, para incentivar a utilização de transportes públicos e aumentar a sua sustentabilidade e oferta; a segunda aponta para um aumento da oferta de transportes como base para uma posterior implementação dessas restrições.

Nenhuma das doutrinas actuais defende um alargamento do espaço dedicado à circulação e estacionamento de automóveis em zonas urbanas consolidadas. Muito menos à conta do espaço verde pedonal.

Contudo, a reboque da passagem do canal dedicado ao Metro Mondego, a Câmara Municipal de Coimbra prepara-se para eliminar boa parte do espaço relvado e arborizado existente entre a rua D. João III, no flanco nascente do Estádio Cidade de Coimbra – onde o trânsito é, ou antes, deveria ser, condicionado – e o parque de estacionamento em frente ao centro comercial Gira Solum.

Na proposta do Município, metade da área que os mapas da Google chamam de Jardim da Solum será substituída por mais lugares de estacionamento, benemeritamente condicionados à paragem exclusiva daqueles que transportam as crianças de e para o 2.º Jardim-Escola João de Deus.

Enquanto cidadão de Coimbra, pasmo perante este “inevitável” disparate urbanístico, que se junta ao abate de árvores pela cidade. Uma vez mais, reformula-se o espaço urbano em contracorrente com as boas práticas urbanísticas contemporâneas, e às escondidas dos moradores, num bairro já castigado pelo trânsito nas horas de ponta, junto com a consequente – e por vezes intolerável – poluição atmosférica e acústica.

Analise-se, pois, o absurdo da opção.

Em vez de se aproveitar as obras em curso para ordenar e limitar o estacionamento abusivo que colonizou impunemente e de modo permanente toda a envolvente do estádio, alargando os lugares dedicados à fruição pedonal e ciclável da cidade, destrói-se um jardim com quase vinte anos.

Em vez de se promover o Metro Mondego como transporte rápido e ecológico, obrigando, repito, obrigando à troca do automóvel individual pelo transporte colectivo, numa das áreas mais bem servidas pelos SMTUC, institucionaliza-se a contínua violação motorizada do espaço pedonal.

Em vez de uma requalificação abrangente, regida por princípios ecológicos, deturpa-se com um parque automóvel particularmente mal concebido o restante desenho urbano – a Solum é, recorde-se, uma das mais felizes realizações do modernismo arquitectónico e urbanístico do século passado.

O município promete assim, não se tenham ilusões, deslocalizar para cima daquele jardim a selvajaria verificável na rua D. João III.

Intensificar-se-ão os problemas no fluxo automóvel, a degradação dos passeios ou a acumulação de lixo que afligem a envolvente do estádio e dos dois centros comerciais. Tudo isto onde já é regra estacionar motas, carros e pesados sobres os passeios, onde os automobilistas em transgressão buzinam e insultam os peões, onde alguns arrumadores importunam agressivamente quem passa ou estaciona.

Beneficiar-se-ão os constantes infractores, aqueles que vão ali, num um instantinho, às compras, ao ginásio, ao café, à raspadinha. “São só cinco minutos”, desculpam-se constantemente.

Existem alternativas, que carecem apenas de alguma coragem e ambição.

O espaço destinado à largada de crianças no Jardim-Escola pode ser destacado do estacionamento já existente, em frente ao Gira Solum. Todos os restantes lugares na zona poderiam ser pagos, quer através de parquímetros, quer de dísticos para moradores – boa parte destes tem garagem –, por modo a reduzir a pressão automóvel no local, contribuindo para o financiamento dos SMTUC. Deveria incentivar-se a utilização do parque subterrâneo do Alma Shopping, clara e permanentemente subaproveitado. E a Polícia Municipal (ou a PSP), a troco de umas quantas coimas, ocasional e aleatoriamente zelaria pelo cumprimento das regras elementares de cidadania. O resultado seria melhor para todos.

Não ponho em causa as boas intenções de quem concebeu ou permitiu este absurdo. No entanto, além dos danos evitáveis na mancha verde, questiono-me se se avaliou o impacto para todos aqueles que ali habitam ou circulam a pé diariamente, e que não frequentam o referido jardim-escola.

Sente-se nesta medida um travo de cedência ao poder de uma certa elite económica e cultural, pois não se conhece outra escola no tecido consolidado da cidade com tão atenciosas mordomias por reivindicação da sua comunidade educativa. Em nada esta solução camarária é motivada pela segurança das crianças ou a eficiência dos transportes públicos. Trata-se apenas de garantir o imprescindível conforto das boas viaturas que ali pululam e dos seus veneráveis motoristas. Que se desgracem os outros.

Desta feita, nem sequer se pode invocar o interesse público, ou a inevitabilidade decorrente dos condicionalismos do financiamento europeu às obras em curso, que já abateram (e mais abaterão) uns quantos plátanos, outras árvores, e o espírito daqueles que lutam por uma cidade mais sustentável. Nem sequer se pode invocar que a culpa é da Metro Mondego, pois o desenho tem a assinatura do Município.

Em Coimbra, como noutras geografias, estes absurdos são regra na gestão da polis. Opções que, na sua insignificante pequenez, reflectem a incapacidade política de atempadamente corrigir o rumo e evitar o desastre para o qual caminhamos. Tanto faz que mande o senhor Machado ou o doutor Silva. Estão, ou melhor, continuaremos todos, se nada se fizer, subjugados ao poder do petróleo e à tirania do comodismo egoísta do automóvel individual.

Opinião de Eduardo Mota 
Arquitecto | Archigraphics—Studio

NR: Existem 2 arquitetos que usam o nome Eduardo Mota. O autor deste artigo é profissional no Archigraphics —Studio. Não é o arquiteto que trabalha na Câmara Municipal de Coimbra. 

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