No Departamento de Engenharia Civil do Polo II da Universidade de Coimbra, Alfeu Sá Marques analisou o recente rompimento do dique, em Coimbra, na margem direita do rio.
Para o professor, apesar da gravidade da situação, o cenário é menos preocupante do que em episódios anteriores. “Sem dúvida nenhuma, do mal é o menor”, afirmou. Segundo explicou, o projeto hidráulico do Mondego foi concebido para suportar caudais na ordem dos 1.200 metros cúbicos por segundo à chegada a Coimbra, prevendo até o eventual rompimento do chamado dique fusível no Choupal — algo que “este ano aconteceu, contrariamente àquilo que aconteceu em 2000-2001”.
O facto de a rutura ter ocorrido na margem direita é, na sua perspetiva, um fator positivo. “A margem direita é muito menos ocupada por pessoas, são muito mais os campos do Baixo Mondego onde antigamente o rio meanderizava”, explicou, recordando que em 2000-2001 a rutura foi do lado esquerdo, provocando “muitos danos” e circuitos de água difíceis de controlar.
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Além disso, o rompimento atual poderá aliviar a pressão sobre o dique oposto. “Romper do lado direito alivia o dique do lado esquerdo (…) é uma coisa altamente positiva e podemos estar menos preocupados”, sublinhou.
O professor detalhou que o sistema inclui três sifões que descarregam progressivamente para a margem direita à medida que o caudal aumenta. “Cada um deles descarregava cerca de 200 metros cúbicos por segundo, mantendo valores na ordem dos 1.200 a 1.300, que é o normal para evitar problemas nas zonas urbanas”, explicou.
Alfeu Sá Marques elogiou ainda a gestão das infraestruturas hidráulicas neste episódio. “A operação quer da Aguieira, quer do Açude-Ponte, foi absolutamente exemplar”, afirmou, destacando o trabalho da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), da Proteção Civil e do operador do açude, engenheiro Batista, que “merece uma estátua em Coimbra”.
Apesar da resposta operacional, o especialista alerta para problemas estruturais, nomeadamente o assoreamento do rio. Estudos realizados pela sua equipa mostraram um aumento significativo de sedimentos ao longo das décadas. “Não tínhamos batimetria (…) verificámos que em relação a 1982 tínhamos lá mais 500 mil metros cúbicos; em 2016 já eram mais 1.700”, referiu.
A falta de limpeza do leito é visível. “Devia ser um leito mantido limpo e vemos árvores de enormes dimensões (…) árvores com três metros de altura”, disse, defendendo “uma cultura de manutenção, conservação contínua e acompanhamento”.
Questionado sobre se a obra hidroagrícola incompleta pode ter contribuído para a situação, foi direto: “Pode, ajuda e é inconcebível”. Para o especialista, o Mondego “é uma joia da coroa (…) um rio totalmente português” que deveria ser tratado como uma obra-prima.
Criticou ainda a falta de planeamento: “Só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja. Não sabemos fazer planeamento e isso vai ser pago continuamente”.
Quanto às consequências imediatas da rutura na margem direita, Sá Marques antecipa dificuldades no escoamento da água. “Vai demorar muitíssimo mais tempo, atendendo ao grau de saturação dos solos”, explicou, acrescentando que a área afetada está abaixo do canal principal, o que dificulta a drenagem natural. Assim, os terrenos poderão permanecer “eventualmente inutilizados durante mais tempo”.
O professor defende uma intervenção profunda após esta cheia. “Estou convencido que já lá estão mais de dois milhões de metros cúbicos de resíduos, solos e areias”, afirmou, defendendo uma limpeza total do rio.
Apontou ainda que certas infraestruturas podem ter agravado o problema. Sobre a ponte pedonal Pedro e Inês, considerou que “ajudou a fazer subir o nível e a provocar mais cheias e acumulação de sedimentos”.
A concluir, Alfeu Sá Marques reforçou que, apesar de o rompimento do dique ser o “mal menor”, a situação deve servir de alerta para a necessidade de manutenção regular e planeamento estratégico do rio Mondego — sob pena de episódios semelhantes continuarem a repetir-se.