Saúde

O medicamento do dia a dia que salva vidas

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 1 hora atrás em 20-01-2026

O ibuprofeno é um nome familiar – presente na maioria das casas como o medicamento para dores de cabeça, cólicas menstruais ou dores musculares. Mas pesquisas recentes indicam que este anti-inflamatório pode ter um papel inesperado: a prevenção de alguns tipos de cancro.

À medida que os cientistas aprofundam a relação entre inflamação e cancro, o ibuprofeno está a ganhar destaque. Pertencente à classe dos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), o seu potencial anticancerígeno já tinha sido sugerido em 1983, quando estudos apontaram que outro AINE, o sulindaco, estava associado a uma menor incidência de cancro do cólon. Desde então, investigadores têm explorado se estes medicamentos poderiam prevenir ou retardar outros tipos de cancro.

Os AINEs bloqueiam enzimas chamadas ciclooxigenases (COX). A COX-1 protege a mucosa estomacal e mantém a função renal e a coagulação sanguínea, enquanto a COX-2 está ligada à inflamação. O ibuprofeno inibe ambos os tipos, razão pela qual é recomendado tomá-lo com comida, para reduzir irritações no estômago, como consta na Science Alert.

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Um estudo recente, realizado em 2025, revelou que o ibuprofeno pode diminuir o risco de cancro do endométrio – o tipo mais comum de cancro do útero, que afeta sobretudo mulheres após a menopausa. O estudo, que acompanhou mais de 42.000 mulheres ao longo de 12 anos, concluiu que aquelas que tomavam pelo menos 30 comprimidos de ibuprofeno por mês apresentavam um risco 25% inferior de desenvolver a doença, em comparação com mulheres que tomavam menos de quatro comprimidos mensais. O efeito protetor parecia ainda mais acentuado em mulheres com doenças cardíacas.

Curiosamente, outros AINEs, como a aspirina, não demonstraram o mesmo efeito neste estudo, embora possam ajudar na prevenção da recorrência de cancro intestinal. Estudos adicionais sugerem que o ibuprofeno também pode reduzir o risco de cancro do intestino, mama, pulmão e próstata, além de dificultar o crescimento e sobrevivência das células cancerígenas.

O mecanismo envolve a redução da inflamação ao bloquear a COX-2, diminuindo a produção de prostaglandinas – substâncias que promovem a inflamação e o crescimento celular. Além disso, o ibuprofeno parece influenciar genes relacionados com o cancro, como HIF-1α, NFκB e STAT3, tornando as células tumorais mais vulneráveis e possivelmente mais sensíveis à quimioterapia.

Apesar destes resultados promissores, os especialistas alertam para os riscos da automedicação. O uso prolongado de AINEs pode causar úlceras, hemorragias, problemas renais e, em casos raros, complicações cardíacas. Interações com outros medicamentos, como anticoagulantes ou alguns antidepressivos, podem aumentar ainda mais estes riscos.

Por agora, os médicos recomendam que a prevenção do cancro se centre em hábitos de vida saudáveis: alimentação equilibrada, controlo do peso e prática regular de exercício físico. Embora o ibuprofeno possa um dia fazer parte de estratégias de prevenção em grupos de alto risco, a ciência ainda não fornece consenso suficiente para o seu uso preventivo generalizado.

A mensagem final é clara: os medicamentos de uso diário podem ter surpresas escondidas, mas a abordagem mais segura continua a ser cuidar do corpo e da saúde de forma consciente e informada.

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