Coimbra

O endógeno, esse traste!

Opinião | Amadeu Araújo | Amadeu Araújo | 2 meses atrás em 24-02-2024

Éramos uma dúzia na mesa, todos reunidos de volta de duas poderosas panelas de uma deliciosa feijoada, com couve, um belo de um feijão vermelho demolhado, chouriço, farinheira, chispe, costela, entrecosto, entremeada, orelha. Uma travessas de arroz e um companheiro dedicado à nobre tarefa de encher o prato. Bons produtos, tudo o que a terra produz e ali estava eu, de volta dos sabores e da conversa. Zangado.

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À mesa, havia um tinto, que eu soubera, de antemão, que não era dali. E isto porque tenho a mania de beber um branco para aperitivar refeição com um cigarro rasca que até o Português Suave mataram e, perguntado e cheirado, topei-me com um Douro. Ora eu estava em Gumirães, junto à fonte, no coração do Dão e não havia vinho da região.

O mesmo acontecera-me em Aveiro, dias antes, embalado a despenhar um robalo, de mar, acompanhado de uns brócolos, mas não havia vinho da Bairrada. O Alentejo, que bebo quando vou a Arraiolos, fazia-se representar na carta em regimento. Do vinho da região, nem um destacamento avançado em operação de reconhecimento.

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Esta mania de alguma restauração esquecer as origens da terra e embalar no que os parolos vão dizendo, dá nisto. Julga-se que Douro e Alentejo são bebidas nacionais e as outras regiões esquecidas. Vituperadas na própria casa. A pegada ecológica cresce e o endógeno, esse traste, que casou com aquela bandeira que sinaliza os fundos comunitários, que habita na língua dos políticos e viaja a Lisboa, a Espanha, a Bruxelas, ao raio que o parta, esquecido. Pior, depois de casado deu filhos e saltitam por aí os produtos endógenos. Ora bardamerda para tamanha ignorância. O que custa, como acontece em lugares civilizados, ter o vinho da região? A copo ou em garrafa?

Que tenham lista farta e vasta, a que a bolsa permita, mas não ter o da terra é caudilho.
Andamos aqui a gastar milhões em nome da nossa agricultura, das nossas terras rudes e generosas, chegamos à mesa do restaurante, da tasca, da chafarica e sai vinho além-fronteiras.

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Pior, no mesmo dia e rabugento, abalancei-me, com meu filho, depois de trabalho feito, à merenda. Umas chamuças, uma bola e vinho. De novo o Douro. Servido ali em Rio de Loba, também uma aldeia feita bairro de Viseu.

Não aguentei mais, fugi ao abrigo da Igreja do Coração de Jesus, enfiei-lhe um Corga, branco 2022, pelas goelas abaixo e desabafei com o produtor.

Que andas a fazer Portugal? Tanto dinheiro, europeu, gasto a promover os endógenos, tanta palestra, comunicação, conciliábulo e no final sai confabulação, travestida de cartografia dos sabores, livro da gastronomia regional e, para espanto e rebuliço, a Carta dos Segredos Gastronómicos que recupera o património gastronómico das mesas de Viseu Dão Lafões. Bom de Lafões o tanas, que se encontra um bom vinho, com denominação, mas que não salta à mesa de toda a restauração e esquece o americano de Santa Cruz da Trapa, que dizem estar proibido. Vinde à feira do vinho, assim se chama o tasco em linguagem cifrada, que eu vo-lo mostro.

Um país rico de queijos, enchidos, arrozes, carnes, vinhos e tanto o mais, incapaz de servir um vinho regional, regional não no paleio burguês, regional dali mesmo.

Não percebemos nada disto, uns patuscos, pensando que são cosmopolitas e vai-se a ver, parolos.
Atravessem a fronteira e vejam se não sai um Rueda, ou um Rioja, ou Albariño, conforme a disputação em que estivermos.

Quem vai à adega e não bebe, é ronda que perde. E perde porque não entende que “a vaquinha medra com o olhar do dono”.

OPINIÃO | AMADEU ARAÚJO – JORNALISTA

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