Opinião

O carnaval nunca acaba

OPINIÃO | Angel Machado | 2 meses atrás em 21-02-2024

Há uma certa ironia nas tradições populares mas, para que não haja imbróglio, falo de carnaval que, surpreendentemente ou não, acontece o ano todo, abaixo e acima da linha do Equador. Os políticos são as personagens com as máscaras mais impiedosas, marcham ao som da bateria das mentiras, fragilizando cada vez mais o povo que parece gostar de ser enganado com o pão e circo.

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A “folia” generalizada está na capacidade de onerar as pessoas, deixando-as reféns de um sistema validado e dos grandes e pequenos poderes. Sofremos de indecência e sabemos o porquê. Os interesses são o álibi para a festa continuar.

Em 1966, Chico Buarque compôs a música A Banda – um sucesso -, uma das obras mais emblemáticas da música popular brasileira. “A minha gente sofrida / Despediu-se da dor / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / Mas para meu desencanto / O que era doce acabou / Tudo tomou seu lugar / Depois que a banda passou.” A canção de melodia alegre num ritmo que remete às marchinhas de carnaval, reflete, também, sobre a efemeridade dos momentos felizes. Depois da banda passar, a dor e a rotina reassumem o seu espaço. É um contraste entre a alegria temporária e o retorno à realidade – a metáfora da vida. Paradoxalmente, vivemos esse ciclo.

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 A tragédia moderna não se passa em criar dilemas, como o do príncipe da Dinamarca. É importante que o “carnaval” acabe agora.

Atualmente, pode parecer inútil chamar a atenção de alguém com diálogos hiperbólicos e consistentes, porque é vulgar viver alheio aos problemas da sociedade global, em que alguns estão preocupados com os plásticos – que há anos poluem os oceanos -, e outros, com a coluna social e o horóscopo. São tantas as efemérides, mas o carnaval continua, nunca acaba.

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Sou humanista, democrata e livre pensadora. Eu não preciso me agarrar a partidos, tenho discernimento para ignorar a minha inércia perante os acontecimentos desastrosos que ocorrem no mundo. Estamos todos indignados e estagnados. Joguem fora os orgulhos metafóricos, parem de fazer as vossas preces e comecem a agir como cidadãos de verdade. 

Nem eu sei como é, mas, o primeiro passo é registar a relevância da minha lucidez, implorar por paz, justiça e votar com a retidão possível no candidato que usa máscara para dormir. Pão e circo sempre existiram. Mas o carnaval dos tempos modernos exige que não sejamos ingénuos, e que o disfarce dos políticos não altere a nossa consciência. 

OPINIÃO | ANGEL MACHADO – JORNALISTA

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