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O ar que respiramos está a mudar o nosso sangue

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 1 hora atrás em 04-03-2026

Um novo estudo científico sugere que a crescente concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera terrestre não está a afetar apenas o clima global — pode estar a deixar “impressões” mensuráveis no corpo humano.

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Pesquisadores analisaram duas décadas de dados de análises sanguíneas de quase 7 000 pessoas nos Estados Unidos, recolhidos pelo National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) entre 1999 e 2020. Eles encontraram uma elevação gradual nos níveis de bicarbonato no sangue, um composto que se forma quando o CO₂ inspirado se dissolve no organismo, refletindo diretamente a subida do gás na atmosfera.

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Os níveis médios de bicarbonato aumentaram cerca de 7 % no período estudado, paralelamente ao aumento de CO₂ atmosférico — que passou de cerca de 369 partes por milhão (ppm) em 2000 para mais de 420 ppm hoje.

Em contraste, os níveis médios de cálcio e fósforo no sangue diminuíram, o que pode ser um reflexo da resposta fisiológica do corpo à alteração do equilíbrio ácido‑base.

De acordo com os autores, liderados pelo fisiologista respiratório Alexander Larcombe, essas mudanças ainda estão dentro de limites considerados saudáveis, mas o ritmo de evolução é preocupante: se as tendências atuais continuarem, alguns parâmetros podem atingir os extremos das faixas consideradas normais dentro de cerca de cinquenta anos — por volta de 2076, segundo modelos dos próprios cientistas.

Quando o dióxido de carbono é inalado, o corpo converte parte dele em bicarbonato para manter o pH sanguíneo estável. Mas o aumento contínuo de CO₂ pode estar a exigir uma resposta fisiológica constante por parte dos rins e outros sistemas reguladores, o que pode refletir‑se em alterações de minerais como cálcio e fósforo no sangue.

Os pesquisadores alertam que nosso organismo evoluiu num ambiente com níveis de CO₂ relativamente estáveis ao longo de dezenas de milhares de anos, e que a rápida intensidade das mudanças atuais pode estar fora do que nossos mecanismos fisiológicos conseguem adaptar sem consequências a longo prazo.

Embora estes resultados não indiquem risco imediato, eles levantam questões sobre possíveis efeitos crónicos de uma atmosfera com níveis persistentemente elevados de CO₂, especialmente entre crianças e adolescentes em desenvolvimento.

O trabalho foi publicado na revista Air Quality, Atmosphere & Health e chama a atenção para a necessidade de redução significativa das emissões de CO₂, não apenas para mitigar as alterações climáticas, mas também para proteger a saúde humana a nível fisiológico.

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