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Nova digressão de Miguel Araújo tem canções novas e uma ‘quase’ de intervenção

Notícias de Coimbra com Lusa | 2 meses atrás em 05-02-2024

A edição de 2024 da digressão “Casca de Noz”, de Miguel Araújo, mistura alguns dos seus maiores êxitos com músicas nunca antes apresentadas ao vivo e duas canções totalmente novas, uma delas ao estilo de intervenção.

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No primeiro concerto da nova “Casca de Noz”, na noite de sábado, na Figueira da Foz, distrito de Coimbra, o cantor e compositor natural do Porto voltou a apresentar-se sozinho em palco, ao piano e à guitarra.

“Já não fazia este ‘Casca de Noz’ sozinho em palco desde há um ano, fiz muitos concertos, entretanto, com a banda, mas é um registo absolutamente diferente. Estou sempre com medo de estar enferrujado, mas depois a coisa começa-me a sair e quando fiz aquele solo dos ‘Aviões’… Já não fazia aquele solo de guitarra há meses e ‘soltei ali a franga’ toda”, disse Miguel Araújo à agência Lusa, em entrevista após o concerto.

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“Acho que correu bem, senti ali que a malta estava a ouvir, principalmente quando cantei músicas que nunca tinha cantado na vida, que não estão editadas nem nada. Uma das músicas que toquei [‘Meia Vida’] fiz há uma semana, ou assim”, sublinhou.

Outra das músicas novas, um fadinho ligeiro e corrido, versa sobre temas que, em palco, Miguel Araújo explicou não serem habituais nele: “Nunca falo de política nem de questões sociais, mas esta é um bocadinho de intervenção”, admitiu.

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Desengane-se, porém, quem antecipa que “Sessão Plenária” tem sindicalistas ou um qualquer plenário de trabalhadores. Ao invés, acompanha uma “verdadeira instituição”, os velhotes que se reúnem nas praças das cidades, enquanto atiram “milho aos pombos e umas bojardas para o ar”.

O ritmo alegre segue as conversas do ‘doutor José da Esquina’ e do ‘professor José Ninguém’, “sem censura, sem surdina, sem São Bento nem Belém”.

“Sessão Plenária” foi a primeira da noite a ser acompanhada a palmas pela assistência, uma situação que nem sempre agrada ao cantor, especialmente quando atua sozinho, sem a sua banda, e o público sai completamente do ritmo.

“Já não tenho esse ‘chip’ de estar virado para as pessoas, aquilo de pedir palmas não faço, antes pelo contrário. Quando as pessoas começam a bater palmas muito fora do ritmo e eu estou sozinho é mesmo muito complicado. Para mim é natural ir-me adaptando ao ritmo das pessoas e é impossível, porque cada um está no seu ritmo. E até já tenho um truque, que é começar a abrandar a música para as palmas pararem”, observou Miguel Araújo.

O alinhamento na Figueira da Foz, que o músico admitiu nem sempre seguir à risca, começou com cinco temas ao piano, onde se incluiu “Lá Vai Sofia”, o sexto ‘single’ vindo do mais recente trabalho de originais, “Chá Lá Lá” (2022), gravado com a Orquestra Filarmónica da Cidade de Praga e inspirado numa Sofia verdadeira, Sofia Ulrich, mulher do ‘chef’ e empresário José Avillez, que o revelou publicamente.

“Acho que [a Sofia] gosta [da canção]. Depois chateia-se com o marido, contou-me ele, e mete-se no quarto a ouvir a música”, brincou o cantor.

Na conversa com a Lusa, Miguel Araújo abordou o seu processo criativo e como ele se compatibiliza com o dia-a-dia de pai de três filhos pequenos: “No outro dia vi uma frase engraçada que diz que ‘a rotina é o que liberta’ e a mim também, a rotina liberta-me. Eu tenho uma rotina muito normal, muito parecida com a de toda a gente que tem filhos e se dedica aos filhos e à vida familiar: acordo cedo, vou levá-los à escola, vou às reuniões dos pais, cozinho em casa, faço limpezas, e é nessas rotinas que eu trabalho”, enfatizou.

“Não vou para o estúdio fazer músicas. Tenho um estúdio em casa e vou gravá-las, mas não fazê-las. Tenho um piano em casa, tenho guitarras espalhadas por tudo quanto é sítio, tenho o telemóvel onde escrevo e é enquanto faço a minha rotina que trabalho, não é uma coisa ou outra”, reforçou.

Desde sempre atento aos pormenores que o rodeiam, essa forma de estar também concorre para o processo criativo de Miguel Araújo: “Não sei se é defeito de trabalho, se é defeito de fabrico, sempre fui assim”, declarou, com uma gargalhada. E continuou: “Sou uma pessoa muito atenta aos pormenores e muito distraída em relação ao contexto geral das coisas, é assim que o meu cérebro funciona, o que acaba por ser conveniente para este trabalho que me escolheu”.

Sim, que o artista alega que foi ficando na música, deixando para trás o curso de Gestão cumprido na Universidade Católica, como se a música o tivesse escolhido.

“Nunca houve um dia em que eu tivesse escolhido ser músico, ou escritor de canções, ou cantor, nunca houve esse dia. Simplesmente, a música foi-me raptando”, argumentou.

O primeiro concerto a que assistiu ao vivo foi a digressão do álbum de estúdio de Rui Veloso “Mingos e os Samurais”, nos idos de 1990, aos 11 anos, no Coliseu do Porto. O ‘pai do rock português’ tem em “Porto Sentido” um hino à invicta. A Miguel Araújo, falta um hino ao Porto?

Na resposta, o músico frisou que a sua música “é muito portuense” e que “1987”, do álbum “Giesta” (2017) – um dueto com Catarina Salinas, sobre a infância e as memórias de Miguel, aos nove anos, no Porto – é exemplo disso mesmo.

“Mas não tenho assim uma muito declaradamente sobre o Porto, mesmo se acho que não há nenhuma música minha que não esteja impregnada de Porto”, vincou.

Aliás, o cantor faz uns ciclos de música com história com José Cleto, em que o historiador pega em músicas de Miguel Araújo e depois faz o retrato histórico das situações que levaram àqueles locais, que, em comum, têm precisamente a cidade do Porto.

Pela primeira vez em nome próprio no Centro de Artes e Espetáculos (CAE) da Figueira da Foz, Miguel Araújo passou por temas mais conhecidos como a “Incrível história de Gabriela de Jesus”, do álbum “Peixe Azul” (2020), integralmente composta no estúdio que tem em casa, em pleno confinamento da pandemia de covid-19, “Dona Laura”, “Será Amor”, “Recantiga” ou “Pica do 7″, escrita e composta para António Zambujo, com um “solo de assobio” pedido à plateia.

Em “Rancho Fundo” – canção brasileira da década de 1950 popularizada por uma versão incluída na novela “Tieta”, de 1989 –, voltou a pedir a colaboração do público para a cantar “a meias”.

Já “Catavento da Sé”, também composta para o amigo Zambujo, esteve a passar na aparelhagem do CAE minutos antes do concerto começar e Miguel Araújo entendeu incluí-la no alinhamento, sem certezas de se lembrar da totalidade da canção.

A fechar o concerto de 90 minutos, “Talvez Se eu Dançasse”, numa versão com ‘loops’ de guitarra, percussão e teclas, que, se não deixa de ser uma canção festiva, Miguel Araújo reconheceu à Lusa ser um manifesto de timidez e o tímido é ele.

“É das poucas músicas que fala claramente sobre mim, é um autorretrato”, notou.

A digressão “Casca de Noz” tem mais nove concertos, até abril, todos já esgotados, com o próximo a realizar-se na Maia, no sábado, 10 de fevereiro.

Seguem-se atuações no Teatro Maria Matos, em Lisboa (27 de fevereiro), no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra (01 de março), no Theatro Circo, em Braga (02 de março), no Centro Cultural de Carregal do Sal (15 de março) e no CAE de Portalegre (16 de março).

“Casca de Noz” chega ao Porto, ao Teatro Sá da Bandeira, a 21 de março, um dia antes da atuação no Centro de Arte de Ovar. A digressão tem o último concerto anunciado para 24 de abril, no Cineteatro Alba, em Albergaria-a-Velha.

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