Expressões como “bóus días” ou “farina” podem soar a um improviso de “portunhol”, mas fazem, na verdade, parte de um dialeto bem real usado numa pequena localidade espanhola junto à fronteira com Portugal.
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Em San Martín de Trevejo, na província de Cáceres, há uma língua própria que continua a marcar o dia a dia da população. Conhecido como mañegu — uma das variantes de “A Fala” — este dialeto nasceu ao longo de séculos como forma de comunicação entre comunidades fronteiriças, escreve a Meteored.
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Apesar de estar em território espanhol, o castelhano nem sempre domina as conversas. De acordo com a National Geographic, cerca de 80% dos habitantes utilizam diariamente o mañegu, uma língua com raízes no antigo galego-português. Para quem vem de Portugal, há palavras que parecem familiares, mas com diferenças suficientes para causar alguma estranheza.
Atualmente, a continuidade deste dialeto está em risco. Tal como acontece em muitas regiões rurais, a população é maioritariamente envelhecida e os mais jovens tendem a sair, o que ameaça a transmissão da língua às próximas gerações. Ainda assim, têm surgido iniciativas locais para preservar esta herança cultural, desde publicações a projetos de divulgação. O crescente interesse turístico na região também tem ajudado a dar visibilidade ao mañegu e às localidades vizinhas, como Valverde del Fresno e Eljas.
San Martín de Trevejo distingue-se também pelo seu cenário invulgar. As ruas estreitas do centro histórico são atravessadas por canais de água que descem diretamente da serra. Longe de serem decorativos, continuam a ser utilizados para limpar as vias e apoiar a rega.
O património arquitetónico mantém-se bem preservado, com casas tradicionais organizadas de forma característica: o rés do chão servia para arrumos ou animais, enquanto os pisos superiores eram destinados à habitação.
A vida na aldeia continua profundamente ligada às tradições, com destaque para a produção de vinho. As vindimas seguem métodos tradicionais e culminam, no outono, na celebração de São Martinho, altura em que se prova o vinho novo.
Entre os pontos de interesse destacam-se ainda a Igreja de San Martín de Tours e a praça principal, espaços centrais de uma localidade que preserva a sua autenticidade sem se transformar numa atração turística artificial.
A cerca de 15 quilómetros da fronteira portuguesa, San Martín de Trevejo é uma escapadinha próxima — mas com uma identidade surpreendentemente distinta.
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