O estado de calamidade acabou, mas as marcas da depressão Kristin ainda estão bem visíveis no território. Numa aldeia de Ourém, ainda há quem esteja à espera de telhas, luz e algum descanso.
Na aldeia do Casal dos Bernardos, rodeada de eucaliptais dobrados ou ceifados pela força do vento, a chuva miúda não detém Manuel Lopes, de 81 anos, de ir arranjando a vedação junto à sua casa, mas a vontade mesmo era de subir ao cimo da casa de rés-do-chão e primeiro andar para arranjar o telhado.
“Eu sei fazer aquilo”, diz Manuel, que foi pedreiro toda a vida, enquanto aponta para o telhado. “Mas o meu corpo já não deixa”, lamenta.
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O homem afirma que perdeu 150 telhas com a passagem da depressão Kristin, com o vento a fazer voar chapas que “andaram aos saltos” até atingirem o topo da casa.
Manuel Lopes ainda conseguiu que um amigo lhe pusesse umas telhas improvisadas enquanto espera por telha nova e mão-de-obra para fazer o serviço.
“Ando à procura de empreiteiros, mas não consigo. Isto está mau”, diz.
Depois de ter passado por três AVC e um enfarte, esperava chegar “pelo menos até aos 90 anos” e passar “um fim de vida mais calmo”.
“Mas não há descanso”, desabafa o reformado.
Enquanto espera por um empreiteiro que lhe arranje o telhado, Manuel Lopes critica a falta de pedreiros – “a melhor profissão do mundo” – e deixa uma sugestão: “Se calhar deviam pôr a internet a fazer as casas”.
Também Emília Marques ainda não encontrou um bocadinho de sossego desde aquela madrugada em que acordou às cinco da manhã com o estrondo de traves de eucaliptos a baterem-lhe no telhado e chaminé.
“Voou tudo por cima da minha casa”, conta à Lusa a mulher de 80 anos, que já pediu ajuda, mas que não se mostra muito esperançosa de que algum apoio chegue.
Também ali, o telhado foi remediado dentro do possível e ainda com um susto à mistura – o filho, a tentar tirar a chaminé danificada, caiu e ficou com dois golpes na cabeça.
Mesmo depois do arranjo possível, na cozinha, tem “11 baldes das uvas, três alguidares e uma arrastadeira” para ir colhendo a água que vai caindo.
“Tivemos de tirar a televisão de cima do móvel, mudar o sofá, levar as cadeiras para outro sítio, a mesa lá no meio… e depois é cacos por todo o lado. Olhe, parece o diabo em casa”, contou.
Apesar das infiltrações e da chuva, o que custa a Emília Marques por estes dias é a falta de luz.
Ainda tem uma ligação por fio à casa da filha, também no Casal dos Bernardos, para manter a arca ligada, mas dá para pouco mais.
“Não tenho onde possa fazer uma fogueira, tenho um aquecedor elétrico, mas ele dispara o quadro”, conta.
No domingo, estava tanto frio que lhe gelaram os pés.
“Ontem [domingo] aqueci uma borracha de água e fui para a cama às sete para não passar frio, mas é uma noite muito dolorosa. Sem companhia da televisão, operada a um joelho, duas hérnias lombares… Eu nem posso pensar nisso, que são noites muito grandes. Doem-me os ossos da anca de estar deitada tanto tempo”, afirma.
Por agora, espera pela luz e pelo fim da chuva, à procura de alguma paz, conta Emília, que tem ao seu lado um gato malhado, de nome Tico, que por estes dias não sai de ao pé da dona, “que anda com medo e um pouco ourado”.