Há mulheres que ficaram na história de Portugal por feitos gloriosos. Luísa de Jesus não. Os seus feitos são macabros. Ela originou a morte de muitas crianças.
Existem muitas mulheres portuguesas que realizaram feitos incríveis que merecem ser destacados. Ao longo da história de Portugal, houve nomes femininos que alcançaram o direito a serem eternizados por conquistas nas mais diversas áreas, como na ciência, nas artes, na literatura.
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No entanto, no presente artigo do Notícias de Coimbra, iremos centrar a nossa atenção numa mulher que não se destacou por ser incrível, mas por fazer algo inenarrável. Luísa de Jesus foi uma serial killer de crianças que ficou para a história por ser a última mulher condenada à morte em Portugal.
Não se sabe muito sobre Luísa de Jesus, uma personalidade enigmática que mostrou o lado mais negro e sombrio do ser humano. Ela ficou na história de Portugal pelos piores motivos: cometeu crimes hediondos, sobre os mais indefesos, as crianças.
Foi em Figueira do Lorvão, Penacova, que Luísa de Jesus nasceu. O nascimento de Luísa de Jesus ocorreu em dezembro de 1748. Os seus pais eram de classe baixa, Manoel Rodrigues e Marianna Rodrigues. Seguramente não imaginavam que a criança que tiveram nos braços se iria transformar num verdadeiro monstro.
Ela pode ter vivido com dificuldades, como era comum naquela época, mas teve uma infância saudável. Apesar do contexto delicado em que viveu, Luísa de Jesus não foi vítima de maus-tratos, nem viveu um trauma que pudesse fazer adivinhar o futuro, onde ela revelou o seu lado mais sombrio.
Luísa de Jesus trabalhou como recoveira. Esta mulher percorria diversas aldeias para fazer compra e venda de mercadorias.
Não se deixe enganar pelo apelido. Apesar de se chamar Jesus, Luísa não fez milagres para melhorar a vida dos outros. Ela fez o pior que se pode imaginar: matou crianças.
No passado de Luísa de Jesus, nada havia de errado que fizesse prever o lado negro desta mulher portuguesa. Ela ficou para a história como a primeira assassina em série portuguesa.
Na época em que Luísa de Jesus viveu, havia casas com a chamada roda que permitia a recolha de crianças, nomeadamente conventos e hospitais. Era comum estes espaços terem estes dispositivos que recebiam crianças e lhes prestavam o apoio necessário.
Nestes locais, havia pessoas (por exemplo, enfermeiras, religiosas ou outras) com a responsabilidade de assegurar que os bebés / crianças abandonados tivessem os cuidados mínimos de que necessitavam
Nas casas de roda, havia um dispositivo de madeira cilíndrico que se apresentava dividido e era giratório. Ora, as mães que não tinham condições psicológicas ou financeiras para ficar com os seus bebés colocavam-nos neste dispositivo, abandonando-os em privacidade.
Quem usava o dispositivo avisava as pessoas presentes na Casa da Roda que tinha sido colocado um bebé, pois tocava uma sineta. Este procedimento permitia que o bebé tivesse de imediato a merecida atenção, porque um ser tão frágil necessita de todos os cuidados a toda a hora.
Foi a Casa da Roda de Coimbra que Luísa de Jesus usou, porque tinha o objetivo de receber a oferta de 600 réis, além de um enxoval e meio metro de um tecido grosso de algodão.
Esta medida servia como um incentivo dado pela Casa da Roda de Coimbra para haver mais famílias que desejassem adotar crianças a salvarem estas almas que estavam condenadas a sofrer.
Anualmente, eram deixadas 200 crianças nesta Casa. Contudo, metade morria em pouco tempo. Mesmo com todos os esforços da instituição, não havia condições suficientes para elas terem todos os cuidados.
Esta mulher chegou a adotar bebés e crianças em seu nome. Contudo, para não levantar suspeitas, ela usava a sua função como recoveira, para as adotar para supostos conhecidos dela. Como a jovem transportava encomendas da cidade para Gavinhos, conhecia muita gente.
Luísa de Jesus adotou 34 bebés, mas não tinha as melhores intenções. Queria apenas obter a compensação financeira com estes crimes. Ela tinha este método e ceifava a vida dos bebés e das crianças sem qualquer misericórdia.
Ela era a morte em pessoa. Mal se encontrava sozinha com os bebés e crianças que adotava, apertava-lhes o pescoço com as próprias mãos, asfixiando estes seres indefesos até eles libertarem o seu último suspiro. Com os seus crimes, obteve mais de 20 mil réis.
A Freira Angélica Maria tropeçou num cadáver que estava mal enterrado no Monte-Arroio no dia 1 de abril de 1772, o que levou a que fossem realizadas escavações no local que levaram à descoberta de mais dois bebés. Havia marcas evidentes de estrangulamento nos pescoços das vítimas.
Ora, Luísa de Jesus revelou-se a principal suspeita do caso. Por isso, nesse mesmo dia, terminaram os crimes desta mulher monstruosa. Num interrogatório feito a Luísa de Jesus no dia 6 de abril, ela confessou ter assassinado os três bebés encontrados.
As autoridades prosseguiram com a investigação e descobriram que Luísa de Jesus adotou várias crianças com recurso a endereços e a nomes falsos. A diretora da Roda de Coimbra, Leocádia Maria da Conceição, e a ama Margarida Joaquina tinham Luísa de Jesus, como uma pessoa de bem, confiavam nas suas boas ações. Por isso, colocavam os bebés e as crianças nas suas mãos, confiando nas informações fornecidas, sem confirmarem a sua veracidade.
Leocádia Maria da Conceição e Margarida Joaquina também foram presas, devido ao que atualmente se poderia chamar de ‘negligência criminosa’. Contudo, saíram em liberdade pouco depois.
Luísa também enganou o advogado Pascoal Luís Ferreira da Silva, que chegou a atestar a veracidade dos dados fornecidos por ela. Ele foi preso e também saiu em liberdade, pouco depois, devido à falta de provas do envolvimento nos crimes cometidos pela serial killer das crianças.
Seguiram-se dias em que foram encontrados diversos corpos. Luísa foi confirmando a autoria de vários crimes, mas novos corpos eram verificados nas escavações realizadas. Embora as autoridades tivessem confirmado que Luísa “adotou” 34 crianças, apenas foram encontrados 33 corpos. Nunca foi revelado o paradeiro de uma dessas crianças.
Luísa de Jesus confessou ter assassinado 28 crianças. Contudo, apesar do corpo de uma delas nunca ter sido encontrado, ela terá sido responsável pela morte de 34, todas as que adotou.
No dia 1 de julho desse ano, Luísa de Jesus recebeu a sentença mais severa. O tribunal culpou-a de todos os homicídios. Os juízes defenderam que em Portugal nunca se viu “um monstro de coração tão perverso e corrompido”. Por isso, a serial killer das crianças tornou-se a última mulher a receber a pena de morte no nosso país.
Ela foi condenada a percorrer as ruas com uma corda ao pescoço. Os crimes cometidos por ela eram lidos em voz alta, enquanto ela realizava o percurso pelas ruas, o que servia para atiçar a raiva da multidão que circundava a assassina.
Luísa de Jesus foi queimada com uma tenaz em brasa e as mãos foram decepadas antes dela morrer no garrote. Posteriormente, o cadáver foi queimado. Quando deu o seu último suspiro tinha 22 anos. Luísa tornou-se na última mulher a ser enforcada em Portugal, na sequência da condenação a pena de morte.
Luísa de Jesus foi a primeira serial killer de crianças da história do nosso país e também foi a última mulher condenada à morte em Portugal.
Os feitos macabros desta personalidade que foi autora de tantos crimes ignóbeis inspiraram a criação de um romance de Rute de Carvalho Serra, A Assassina da Roda, além de terem servido para uma peça de teatro que herdou o mesmo título, Luiza de Jesus – A Assassina da Roda. Esta peça de teatro esteve em cena no Teatro da Trindade, em 2021.
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