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Na pequena ilha de Ereira faz-se “figas” contra risco de cheias
Imagem: MIGUEL A. LOPES/ LUSA
A “fazer figas” para que o nível da água do Rio Mondego não suba muito mais, depois de já ter transbordado, a população de Ereira, Montemor-o-Velho (Coimbra), assiste hoje com calma à situação, lembrando as cheias de 2001.
“Em 2001, como houve alguma coisa que partiu [no controlo da água do Rio Mondego], não sei bem aonde, encheu toda esta parte aqui. Isto era um cenário de guerra. Nesta altura, não é um cenário de guerra. Está tudo calmo e toda a gente está a fazer figas para que não se parta nada, para que isto siga lentamente. Acho que ainda aguenta muita água até chegar às casas”, afirma Manuel Rodrigues, de 65 anos, que mora a 100 metros do centro da freguesia de Ereira.
Junto à capela de Ereira, onde há um azulejo a marcar até onde as águas do Mondego chegaram nas cheias de 2001, moradores, bombeiros e proteção civil concentram-se no centro da freguesia, de onde assistem a subida do nível da água do Rio Mondego, com a estrada de acesso já alagada. A zona da praia fluvial, com um campo de futebol ao lado, está já submersa. O areal foi ocupado por barcos que facilitam a deslocação entre as duas margens.
O morador Manuel Rodrigues diz que a água do Mondego está “mais de dois metros acima do nível normal”, mas afirma que a população está calma e “a rezar” para que não aconteça o pior, acreditando que “o controlo das descargas está a ser bem feito”.
Em declarações à agência Lusa, ao final da manhã de hoje, o presidente da Junta de Freguesia de Ereira, Nélson Carvalho (PS), que acompanha a subida do nível da água do Rio Mondego juntamente com a proteção civil, bombeiros e fuzileiros, afirma que “a subida tem sido feita de forma gradual, calma, controlada, mas efetivamente a água continua a subir”.
“Nas próximas horas” a estrada de acesso à freguesia, junto à praia fluvial de Ereira, poderá ser cortada a veículos ligeiros, ficando só transitável para veículos pesados e das forças de autoridade, indica o autarca.
Neste momento, ainda não houve necessidade de retirar pessoas da freguesia da Ereira, com cerca de 650 habitantes, revela Nélson Carvalho.
Questionado sobre um possível cenário como as cheias de 2001, o autarca considera que, “felizmente, o risco de uma situação dessas é muito diminuto”.
Na outra margem do Mondego, fora da freguesia de Ereira, Augusto Rainho, de 75 anos, vê a subida da água e conta que “isto não é muito normal, mas quando vem estas chuvas, enche um bocadinho”. Tem memórias de “cheias piores” e, por isso, considera que a atual situação “não é assim muito grave”.
“Mas as casas, muitas casas já devem ter água ali na Baixa”, adianta, sem querer atravessar o rio na estrada alagada para não arriscar ficar com o carro preso.
A conduzir uma carrinha de transporte de mercadorias, José Cunha arrisca atravessar a estrada até Ereira para ir buscar arroz para os animais. Veio de Coimbra e o fornecedor da comida para os animais está “mesmo dentro de Ereira”.
“Tentei passar para o outro lado, não consegui, e ele disse que passava por aqui, vou tentar atravessar, porque os animais precisam de comer todos os dias”, conta, referindo que ainda esta madrugada teve de recolher dezenas de animais, desde ovelhas, cavalos e vacas, para sítios seguros, porque “está tudo alagado”.
“Infelizmente estas povoações ficam assim: isoladas. Acho que se devia tomar algumas precauções antes delas acontecerem, não é depois resolvê-las, porque isto é uma situação que não é bom para ninguém”, defende o trabalhador, que considera que a situação “certamente vai piorar”.
Prevê-se o agravamento das condições meteorológicas nos próximos dias, com chuva intensa, levando ao risco de inundações e cheias, sobretudo nas zonas do Baixo Mondego.
Em Montemor-o-Velho, bem como no concelho vizinho de Soure, ambos do distrito de Coimbra, há estradas interditadas e campos agrícolas alagados. Por exemplo, em Soure, junto ao Rio Arunca, que desagua no Rio Mondego, uma estrada em direção a Montemor-o-Velho está interditada com um sinal de trânsito proibido, suportado com um saco de areia, e uma fita da Proteção Civil a barrar a passagem.