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Montemor-o-Velho: Festival Forte acabou insolvente. Mas há quem o queira recuperar

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O festival de música eletrónica Forte, que se realizava no Castelo de Montemor-o-Velho, acabou com a empresa organizadora insolvente, em 2021, mas há quem queira recuperar o evento que teve a sua última edição em 2019.

O festival Forte acabou com a insolvência da empresa responsável pelo festival, a SN Culture, mas um dos seu principais credores planeia agora recuperar o evento em 2023.

Em 2020, já com o processo de insolvência em curso, do qual a agência Lusa não tinha conhecimento na altura, a organização mostrava vontade de regressar no ano seguinte, apesar de admitir dificuldades financeiras.

A última publicação nas redes sociais do festival é desse mesmo ano, dando conta do cancelamento da edição de 2020 devido à pandemia, e frisando a expectativa de anunciar um regresso “muito em breve”.

Nessa altura, a SN Culture, detida pelo diretor do festival, Ilídio Chaves, já tinha perdido os direitos sobre a marca e imagem do festival, vendidos a um dos seus credores, e acumulava uma dívida de 700 mil euros, de acordo com a lista provisória de credores que a agência Lusa consultou na plataforma Citius.

Em maio de 2021, foi declarada a insolvência da SN Culture, sem direito a liquidação de bens por não haver património a satisfazer, segundo o acórdão do tribunal consultado pela Lusa.

Na lista provisória de credores, publicada em julho de 2019, nas vésperas da última edição do festival, figuravam dívidas desde 2016 até àquele ano (incluindo uma de 2011, antes do festival ter começado).

Entre os credores, estavam agentes de música, produtores e DJ que participaram no festival, como Marcel Dettmann e Michael Mayer, o banco BCP e entidades associadas à logística de um festival de música.

Em 2019, aquando da última edição, foram dados os primeiros sinais públicos de dificuldades financeiras do festival que arrancou em 2014, com artistas a acusarem a organização de não serem pagos, e com vários a cancelarem as atuações previstas.

Na altura, o diretor do festival, Ilídio Chaves, assumia que a continuidade do festival teria de ser debatida.

No entanto, nesse mesmo ano, o festival já se tinha realizado sem que a organização fosse detentora da marca.

A marca tinha sido vendida em 2018, a Sadik Valimamade, irmão de Karim Valimamade, e filho de Sabir Valimamade, dono dos hotéis Sabir, da Figueira da Foz, onde os artistas ficavam hospedados.

O Forte já acumulava cerca de 100 mil euros de dívida àquela família, quer de falhas contratuais relativamente aos hotéis, quer de empréstimos particulares que foram sendo assegurados desde 2014.

Em declarações à Lusa, Karim explicou que o contrato para a venda da marca foi redigido no último dia do festival de 2018, quando a organização precisava de 20 mil euros para assegurar que a edição poderia terminar.

“A marca passava para o meu irmão. Caso fosse pago o valor, a marca passava novamente para o Ilídio”, explicou.

O pagamento não foi feito e a marca “Forte” transitou para Sadik, em setembro de 2018, como a agência Lusa constatou no ‘site’ do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

No entanto, em dezembro de 2018, a organização regista uma nova marca, intitulada “Festival Forte”.

A família Valimamade reclamou, em fevereiro de 2019, e o INPI deu-lhe razão, recusando o novo registo em julho de 2019, um mês antes de o festival arrancar.

O festival acaba por acontecer, sem marca registada e com uma providência cautelar interposta pela família Valimamade, no final de março desse ano, para impedir essa edição de acontecer.

Segundo Karim, ganharam a ação, mas já depois de o festival ter terminado.

A Lusa tentou falar por diversas vezes e através de vários meios com Ilídio Chaves, mas sem sucesso.

Segundo o presidente da Câmara de Montemor-o-Velho, Emílio Torrão, o município tem conhecimento da insolvência e de um processo de litígio, referindo que o diretor do festival nunca mais contactou a autarquia desde a última edição.

“A última edição já foi ‘in extremis’. Nunca mais ouvi falar do Ilídio”, disse, lamentando o fim de um evento “de referência que trazia muita gente”.

Karim Valimamade salienta que, em conjunto com as dívidas aos hotéis e ao seu pai, tem cerca de 110 mil euros por reaver.

Apesar da dívida, acredita que este não é um caso de desvio de fundos, mas apenas de má gestão financeira do festival, que começou logo desde a primeira edição a acumular dívidas.

A sua ligação ao festival remonta a 2014, quando soube do arranque do evento e propôs à organização fazer um preço especial para alojar artistas. Ao mesmo tempo, aproveitou para vender ‘packs’ para festivaleiros, que incluíam estadia na Figueira da Foz, bilhete e transporte entre os dois locais.

Nos anos seguintes, a dívida foi-se acumulando, com Karim a acreditar que o festival poderia ‘dar a volta’ – sinal disso é um empréstimo de 25 de mil euros que assegurou ao Forte em 2017, para garantir que a agência de Jeff Mills, cabeça de cartaz desse ano, não cancelaria a vinda dos seus vários artistas, por falta de pagamento.

O empréstimo acabou por não ser pago no final da edição de 2017, e a organização avançou com um ‘crowdfunding’ para tentar abater a dívida, cujo montante angariado não terá sido usado para abater a dívida da família Valimamade, vinca Karim.

Olhando para trás, Karim tem alguma dificuldade em falar do assunto, assumindo até algum arrependimento por decisões que acabou por tomar.

No entanto, continua a acreditar na viabilidade do Forte.

“Estou a tentar estabelecer parcerias para reativar o festival, idealmente já em 2023. Eu acredito naquele festival”, frisa Karim.

“O Forte baseava-se em expectativas, quando podia basear-se em dados. O cartaz era demasiado caro, os orçamentos, ano após ano, eram altíssimos e não havia uma gestão ajustada à realidade”, notou, salientando que há interesse, inclusive de agências de artistas internacionais, de ver o festival ser retomado.

Uma pessoa que esteve associada ao festival durante vários anos e que optou por não dar o nome, contou à agência Lusa que identificou “graves problemas de gestão financeira” logo a partir da primeira edição.

“Arrancou-se em 2015 já em dívida, e houve sempre uma expectativa orçamental, com uma estimativa de receitas absolutamente desfasadas da realidade”, notou, apontando também para contratos renegociados que eram desvantajosos para o festival e para o parque de campismo, que “era um buraco financeiro”.

Em 2018, o dinheiro que entrava em caixa no festival, “passados dez minutos, já não estava lá, que ia para pagar alguma coisa”, recorda.

Essa mesma pessoa acredita que em Portugal “é muito difícil um festival vingar sem grandes patrocinadores e ‘naming sponsor’”.

Também Margarida Cabral, que foi ajudando na logística do festival desde 2014 até à última edição, afirmou que a tensão em torno das dívidas foi aumentando de ano para ano.

“Era um festival muito especial e a sorte de ter avançado até 2019 foi as pessoas terem acreditado nele. Mas o cansaço foi-se acumulando. Em 2019, senti que seria a última edição”, recorda.

“Muita gente tentou ajudar, mas nunca conseguimos dar a volta. Era apagar tudo e começar tudo outra vez. Aquilo foi desenhado para Montemor-o-Velho, tudo fazia sentido. Não houve boa gestão, mas acho que quem o criou, fê-lo por amor à música”, salienta Margarida Cabral.

por João Gaspar, da agência Lusa

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