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Memórias do travestismo português pela voz dos veteranos

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Três travestis portugueses que atravessaram a ditadura e o ‘boom’ dos espetáculos no pós-25 de Abril de 1974, contaram à Lusa o seu percurso e como o ‘glamour’ esmorecia ao saírem do palco, produto de uma sociedade intolerante.

João Callati, Fernando Santos e Alberto Teixeira são dos travestis mais antigos em Portugal e todos viveram na pele as transformações proporcionadas pelas liberdades que surgiram com a revolução e hoje, com mais de 55 anos, ainda resistem ao mundo do ‘drag’ moderno.

O ‘drag’ ,também conhecido por transformismo, é forma contemporânea e mais popular para designar o travestismo.

O termo ‘travesti’ surgiu em Portugal nos anos 70 do século passado, quando os espetáculos eclodiram nos bairros noturnos das principais cidades do país. Até aí, durante uma ditadura que durou mais de 40 anos do século passado, a atividade era ilegal.

Havia, contudo, uma ocasião em que esta restrição era tolerada: o Carnaval. Em nome da folia e da diversão, os homens saíam à sua de perucas, com a roupa das mães ou das companheiras. Para aqueles que viam no Entrudo mais do que uma brincadeira, esta era a noite mais aguardada do ano.

João Callati, de 68 anos, cresceu nos bastidores dos teatros lisboetas e cedo se viu fascinado pelos extravagantes vestidos de lantejoulas que as atrizes envergavam. Ainda menor de idade, decidiu experimentar.

“Assim que comecei a fazer revista no Parque Mayer [em Lisboa], também comecei a atuar travestido em alguns barzinhos com amigos. Mas sempre às escondidas”, recordou à agência Lusa.

Porém, assim que teve oportunidade de deixar o país, emigrou para Paris onde existia maior tolerância e liberdade artística.

Foi no cabaret Madame Arthur que Zizi Mayer, o nome artístico que escolhera, teve o seu primeiro camarim.

“Um dia, quando uma estrelinha brilha lá no alto, os donos perguntaram-me se eu queria fazer um número de Zizi Jeanmaire [bailarina francesa] nem pensei duas vezes. Foi a minha rampa para fazer só travestismo”, relatou.

O regresso a Portugal aconteceria só após a queda do Estado Novo (em 1974). Na bagagem, trazia a experiência de atuar em palcos da capital francesa.

“Depois do 25 de Abril, os donos dos bares começaram a aceitar todas as pessoas que lá entravam com uma peruca. Não queriam qualidade, queriam era encher. Decidi arranjar um número só meu que mais ninguém fizesse. Como eu gostava muito de circo, aluguei umas jiboias e montei um número”.

A combinação entre o clima de abertura e novas ideias e o regresso dos artistas emigrados fez o ‘drag’ eclodir e instalar-se de Norte a Sul (Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro ou Faro), explicou.

Um desses casos foi o de Fernando Santos, de 58 anos, o criador da ‘drag queen’ Deborah Kristall.

Fernando Santos disse que durante essa época os espetáculos eram muito populares: “Até uma esfregona com uma peruca fazia dinheiro”.

Aos 17 anos, começou a frequentar os bares do Príncipe Real (Lisboa). Foi aqui que, em 1979, recebeu o seu primeiro convite para subir ao palco.

O seu primeiro clube foi o Fórmula 1, uma casa na Amadora que recebeu várias estrelas do transformismo português. “Éramos todos do mesmo grupo (…). Na altura, havia mais camaradagem, faziam-se amigos para a vida”, contou por seu lado João Callati, referindo que ainda se lembra do dia em que Suzy Flowers, a primeira ‘persona’ de Fernando Santos, naquilo que iria ser a sua profissão.

Até ao final dos anos 80, o ‘drag’ viveu a sua Era de Ouro. Os artistas tinham agendas cheias, com espetáculos durante toda a noite.

“Os travestis eram muito respeitados e acarinhados pelo público, tinham estatuto. Chegávamos às casas e era como se estivessem a receber grandes vedetas”, recordou também à Lusa outro travesti português, Alberto Teixeira, 62 anos, que pisou pela primeira vez os palcos também em 1979, na Praia de Mira, no distrito de Coimbra.

Sob a pele de Wanda Morelly, Alberto fez sucesso durante um dos espetáculos do Toma Lá Disto, uma peça itinerante, chegando a subir ao palco cinco vezes para agradecer ao público.

Nos bastidores, contudo, o ‘glamour’ esmorecia. Ao sair das salas de espetáculo, os artistas enfrentavam um mundo onde o preconceito ainda estava enraizado.

“Mesmo com a liberdade quase absoluta, era uma profissão perigosa. Quando fui fazer o cartão de artista, no sindicato do Parque Mayer, tive que suplicar que não escrevessem lá ‘travesti’. Imagine se me pedissem os documentos e eu apresentasse às autoridades um documento a dizer travesti? Nem pensar!”, lembrou Fernando Santos.

Hoje, confrontados com o desgaste da idade, dizem que isso não é um problema. Alberto Teixeira, aos 62 anos, contou que só os anos o ensinaram a aceitar os sinais da idade e torná-los um elemento de comédia.

“Agora já uso colãs e uma esponja para fazer anca, e consigo brincar com isso quando estou em palco. É importante ter sentido de humor, porque sei que dei ao público algo que não poderiam ver em nenhum outro espetáculo”, considerou.

Fernando Santos já conta com 36 anos de experiência, mas ainda sente borboletas no estômago antes de subir ao palco como se fosse o primeiro dia. Além de transformismo, também é diretor artístico de uma casa de entretenimento noturno – e tem tempo para a sétima arte. Em 2009, protagonizou o filme “Morrer como um Homem”, de João Pedro Rodrigues. “Cinema faria até ao fim da vida”, disse.

João Callati viu-se mais em casa durante este ano, rodeado por um imenso guarda-roupa que não chegou a usar – mas já tem saudades do frenesim dos espetáculos.

“Mesmo com uma ocupação tão desgastante, não tenho desejo de parar”, afirmou.

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