A organização ambiental ZERO considera que o anúncio da barragem de Girabolhos é “inoportuno e manipulador” e que esta construção será um erro estratégico que não elimina o risco de cheia e desviará recursos de outras soluções eficazes.
A ZERO reagiu desta forma ao anúncio do Governo de que incumbiu a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) de lançar o concurso público para a construção e exploração da barragem de Girabolhos até final de março.
E lamenta que esta medida esteja a ser apresentada como solução para o problema das cheias na bacia do rio Mondego, numa altura em que a região de Coimbra enfrenta consequências imediatas de fenómenos extremos de precipitação.
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“Esta proposta constitui uma falsa solução, tecnicamente questionável e politicamente instrumentalizada numa altura de grande fragilidade das populações afetadas”, lê-se no comunicado divulgado pela organização.
Para a ZERO, “infraestruturas hidráulicas desta escala exigem uma análise séria, com processos de decisão sustentados em estudos atualizados que abranjam vertentes como a hidrologia, o ordenamento do território, análises de custo-benefício e impactes ambientais, todos eles distanciados do contexto emocional provocado por eventos recentes, não podendo nunca ser substituídos por anúncios políticos enganadores em contexto de crise”.
Considera esta organização que, “entre projeto, avaliação ambiental, financiamento e execução da obra, decorrerão vários anos até à eventual entrada em funcionamento, não respondendo, portanto, às necessidades imediatas das populações afetadas pelo que, não fará qualquer sentido que seja apresentada como solução para a emergência que se vive”.
No comunicado explica como a construção desta barragem não resolveria os episódios de cheia: “Considerando os dados de precipitação no período decorrido entre 03 e 12 de fevereiro, na estação meteorológica de Mangualde/Chão de Tavares, localizada nas proximidades do local previsto para a construção da barragem, foram registados valores acumulados de precipitação de 315,6 litros por metro quadrado ao longo de nove dias”.
“Aplicando este valor à área da bacia hidrográfica associada à famigerada barragem, estimada em 980 Km2 (não chega a 15% do total da área da bacia hidrográfica do rio Mondego), obtém-se um volume potencial de cerca de 309,3 milhões de metros cúbicos de água, valor superior à capacidade total de encaixe da barragem, que é de 244,7 milhões de metros cúbicos (193 hm3 de Girabolhos + 51,7 hm3 no contra-embalse de Bogueira)”.
Para a ZERO, isto significa que, “num cenário idealizado de retenção total, que na realidade nunca ocorreria, a barragem poderia teoricamente encher em cerca de sete dias num cenário de precipitação semelhante”.
E defende que “deve ser dada prioridade absoluta às medidas de resposta rápida, à proteção das populações e à mitigação rápida dos impactos, devendo qualquer reflexão sobre soluções de fundo ocorrer num quadro temporal próprio, com distanciamento técnico e participação pública efetiva para que não se corra o risco de optar por escolhas erradas e irreversíveis tomadas num momento manifestamente inadequado”.