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“Mar” do Mondego cresce a cada dia em Montemor-o-Velho

Notícias de Coimbra com Lusa | 17 minutos atrás em 05-02-2026

Por estes dias, os terrenos agrícolas do vale do Mondego assemelham-se a um imenso mar, que cresce, devagar, a cada dia que passa, e, tocado pelo vento sudoeste, até ondas apresenta, com pequenas cristas brancas.

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Com base num mapa da área inundada nos concelhos de Coimbra, Soure, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz, divulgado pelo sistema europeu Copernicus, a agência Lusa estimou que os campos agrícolas do vale central do Mondego (margem direita) e da bacia da ribeira de Foja – entre a povoação da Ereira (atualmente transformada numa ilha) e o lugar de Azenha Nova, na freguesia de Ferreira-a-Nova (Figueira da Foz), oito quilómetros em linha reta a norte – totalizem 6.600 hectares submersos.

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Esta espécie de mar ou lago de proporções gigantescas – 12 vezes maior do que a Pateira de Fermentelos, considerada a maior lagoa natural portuguesa – está a crescer e a subir, há uma semana, sem que haja como escoar a água acumulada, que vai inundando casas, armazéns e empresas, e submergindo caminhos agrícolas e vias de comunicação.

Se na freguesia da Ereira, cerca de 650 residentes estão isolados desde quarta-feira, – valendo-lhes os meios pesados dos bombeiros, GNR e fuzileiros da Marinha para poderem entrar e sair da povoação pelo único acesso alagado – na sede de concelho, Montemor-o-Velho, a inundação também foi chegando, devagarinho, especialmente à zona oeste, no sopé do castelo.

Ali, entre o espaço natural do Paul do Taipal (cujos passadiços utilizados pelos adeptos da observação de pássaros há muito desapareceram sob as águas) e a antiga estrada por onde se fazia, por dentro da vila, a ligação a Coimbra na década de 1970, pelo menos três moradias e um bloco de apartamentos viram a água chegar, sorrateira, aos pisos térreos.

Ao contrário da grande cheia de 2001, que serve de comparação, na boca de todos, para a inundação atual – mesmo se há 25 anos se tratou de um acontecimento repentino, sem aviso, quando as margens do Mondego partiram, deixando autoridades e população sem reação e dois metros de água acima do nível atual – desta vez tem havido tempo e tranquilidade para salvaguardar pessoas e bens.

Isso mesmo frisou à reportagem da Lusa Bruno Silva, que, com os vizinhos e uma assembleia de condóminos de permeio, resolveram agir para impedir que a água entrasse pela garagem do edifício onde residem.

“Tapámos tudo o que era buracos de areação do prédio, com espuma expansiva, selámos as entradas das portas e, como sabíamos que a água ia entrar na mesma, metemos bombas a bombeá-la para fora”, explicou.

Começaram no sábado a tentar prevenir a inundação que sabiam poder chegar-lhes à porta e o esforço tem surtido efeito: a água no exterior tenta encontrar caminho para dentro do edifício, vai conseguindo, aqui e ali, entrar, por pressão, mas os resistentes moradores têm conseguido enfrentar a inundação.

“Neste momento, temos cinco ou seis centímetros dentro da garagem, quando poderíamos ter 20 a 30 centímetros”, observou.

Entre Montemor-o-Velho e a povoação de Maiorca, localizada a oeste, em linha de visão direta, há um adágio popular, que reza que os da sede de concelho do Baixo Mondego têm o “Monte Maior”, coroado pelo castelo.

Já do lado da vila do município da Figueira da Foz, assegura-se “Maior Cá”, e estes dois topónimos, reza a lenda, teriam dado nome às respetivas povoações.

A avaliar pelos efeitos da inundação em curso, Maiorca parece estar ligeiramente em vantagem: ambas as localidades têm muita água à porta, mas em Montemor-o-Velho já entrou em casas, enquanto Maiorca se mantém, para já, a salvo de males maiores, tirando alguns pinhais transformados em pântanos, uma empresa de materiais de construção, em Santo Amaro da Boiça, invadida pelas águas, e cegonhas e garças que têm trocado os campos alagados por zonas mais urbanas.