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Livro sobre fome em Cabo Verde “diz muito respeito a Portugal”

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O jornalista cabo-verdiano José Vicente Lopes defendeu hoje que o livro que acaba de publicar sobre a fome em Cabo Verde “diz muito respeito a Portugal”, recordando a situação dos cabo-verdianos contratados para trabalhar nas roças são-tomenses.

“Eu diria que este livro diz muito respeito a Portugal”, disse o autor em entrevista à Lusa por telefone desde a Praia a propósito do seu livro “Cabo Verde: Um corpo que se recusa a morrer – 70 anos contra a fome”, publicado na semana passada.

O livro conta a história da luta contra a fome em Cabo Verde desde o Desastre da Assistência, que em 1949 matou, oficialmente, 232 pessoas quando um muro se abateu sobre centenas de pessoas que se encontravam concentradas para receber ajuda alimentar.

Até então, Cabo Verde vivia frequentes crises de fome declarada e “só a partir dessa tragédia é que a questão alimentar em Cabo Verde passou a ser encarada” de forma séria.

Para José Vicente Lopes, o livro mostra como era viver em Cabo Verde até 1949, “por incompetência, por incúria, por falta de vontade política do poder político português e por outras razões, nomeadamente a própria forma como o Estado português estava organizado”.

Lembrou que foi por causa das frequentes crises famélicas em Cabo Verde que “milhares e milhares” de pessoas morreram enquanto outros milhares, ao longo das primeiras décadas do século passado, se viram “obrigadas a ir para São Tomé e Príncipe para ir trabalhar nas roças do cacau em condições de quase escravatura”.

“Ainda hoje há uma população que vive na miséria mais abjeta por causa dessa migração para São Tomé e Príncipe”, disse o jornalista, sublinhando a “responsabilidade moral do Estado português em relação a esses indivíduos”.

Recordando que o Estado cabo-verdiano “com todas as suas dificuldades, com todas as suas carências, atribui uma pensão de sobrevivência aos cabo-verdianos em situação de miséria em São Tomé e Príncipe”, José Vicente Lopes questiona por que motivo Portugal não está ainda envolvido neste esforço.

Referindo tratar-se de alguns milhares de pessoas, o jornalista disse ser “uma população idosa que foi sendo deixada pelo caminho”.

“Vivem naquelas roças ainda em situação de penúria total”, afirmou, recordando que quando o ex-primeiro-ministro cabo-verdiano e atual Presidente da República, José Maria Neves, visitou pela primeira vez esta comunidade, “ele chorou diante da miséria que lá viu”.

A questão dos cabo-verdianos residentes em São Tomé e Príncipe não é um tema novo na relação entre a Praia e Lisboa.

Já em 2010, José Maria Neves propôs em São Tomé e Príncipe uma solução tripartida para esta comunidade, que envolvesse Portugal, além de São Tomé e Cabo Verde.

Nas cerimónias do Dia de Portugal em 2019, na cidade da Praia, o então Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, defendeu um acordo para Portugal e Cabo Verde, juntamente com São Tomé e Príncipe, arranjarem “uma solução para a dolorosa situação para muitos cabo-verdianos que foram para São Tomé e Príncipe nos anos 1960 e se encontram numa situação social muito difícil”.

Já em 2018, o então presidente da Assembleia Nacional de Cabo Verde, Jorge Santos, defendeu que Portugal fosse implicado na resolução dos problemas dos cabo-verdianos contratados para trabalhar nas roças de São Tomé e Príncipe e abandonados pela administração colonial portuguesa depois da independência do arquipélago.

“É um problema que implica não só Cabo Verde, mas também Portugal. É um assunto já em debate entre a diplomacia cabo-verdiana e a diplomacia portuguesa”, e que já “leva 60 anos de atraso”.

“É uma questão de justiça porque esses cabo-verdianos foram para São Tomé e Príncipe para trabalhar em empresas e pagaram as suas obrigações sociais. É uma questão de direito, é algo que deve ser resolvido”, salientou.

Os antigos contratados sobrevivem com pensões dos governos são-tomense e cabo-verdiano, mas estas são ainda insuficientes para resolver muitos dos seus problemas.

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