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Política

Liberdade democrática pode ser dificuldade no combate às alterações climáticas

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O professor catedrático e especialista em alterações climáticas Filipe Duarte Santos admitiu hoje que os regimes democráticos ocidentais terão mais dificuldade em lidar com as mudanças do clima do que regimes de governação como o da China.

“Como é que estes dois modelos vão adaptar-se a esta questão? Não sei a resposta. Mas a capacidade de resposta de um regime como a China é muito maior”, disse Filipe Duarte Santos, durante a conferência de abertura do ano letivo da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra intitulada “O desafio das alterações climáticas no século XXI e seguintes”.

A questão foi colocada por um dos professores na plateia, já no período de perguntas e respostas após a palestra do professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que é também presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS) e diretor do Programa de Doutoramento em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável das Universidades de Lisboa e Nova de Lisboa.

Sublinhando as estimativas de crescimento populacional, Filipe Duarte Santos socorreu-se do exemplo da pandemia de covid-19 para afirmar que não tem grandes dúvidas que a China cumprirá o objetivo de descarbonização total até 2060, referindo que o cumprimento de medidas restritivas da liberdade numa sociedade que não segue o modelo democrático ocidental é mais simples, como se confirmou com os confinamentos.

Na China, referiu ainda, não haveria também margem para algumas liberdades que Filipe Duarte Santos considerou marcas menos positivas das democracias ocidentais, como a negação da ciência.

“A negação da ciência em relação à covid-19 é uma coisa que nos dá alguma perplexidade. Esse tipo de comportamento de ‘liberdade’ não existe na China”, disse.

Na palestra o especialista em alterações climáticas traçou um ponto de situação face ao que é conhecido em termos de causas, consequências e ações de combate necessárias, ainda que admita que as dificuldades começam logo ao nível individual.

“Já passei a fase de acreditar que a mudança de estilos de vida e comportamentos individuais é simples”, disse, acrescentando, no entanto, que, até por questões económicas, será inevitável que o mundo faça a transição energética.

“Vai ser muito difícil, mas não temos alternativa. A alternativa é termos um mundo mais disfuncional e um crescimento económico mais difícil”, disse, sublinhando que é do interessa da economia, de forma geral, resolver o problema o mais rapidamente possível, porque quanto mais se adiar, piores serão os impactos.

A pandemia, admitiu, veio tornar as pessoas “mais sensíveis” aos problemas do ambiente e da crise climática, mas mudar comportamentos individuais e reflorestar o planeta – fundamental para a captura de dióxido de carbono, cuja acumulação na atmosfera favorece o aquecimento global – não será suficiente para resolver o problema das alterações climáticas, sendo necessário apostar em processos químicos de captura de carbono na atmosfera.

No entanto, projetos de investigação de geoengenharia em curso, como o de uma equipa da Universidade de Harvard que pretende lançar para a estratosfera grandes quantidades de dióxido de enxofre para diminuir a temperatura atmosférica, comportam riscos e podem ser, em si mesmos, uma “segunda alteração climática”.

A questão energética é, para Filipe Duarte Santos, central no combate às alterações climáticas, mas os custos associados são elevados e sublinhou que esta não será possível sem o apoio dos países mais ricos aos menos desenvolvidos, até porque se o mundo não chegar a um patamar de zero emissões não será possível baixar a temperatura no planeta.

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