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Kizomba continua a aproximar africanos e chineses em período de pandemia 

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Num sábado à noite, em Hangzhou, icónica cidade do próspero leste da China, africanos, chineses e europeus aproximam-se ao ritmo da kizomba, dança originária em Angola que ganhou popularidade, nos últimos anos, no país asiático.

“Se não fosse a kizomba, a parede entre africanos e chineses, ou asiáticos, seria muito maior”, diz à agência Lusa Yanick Vieira, estudante de engenharia e professor de kizomba em Hangzhou.

“A distância [entre os povos] era grande, mas tornou-se mais pequena, graças à kizomba”, frisa. “Isso, eu posso dizer com certeza”.

Hangzhou é a capital de Zhejiang, uma das mais prósperas províncias da China, com uma área pouco maior que Portugal e cerca de 55 milhões de habitantes. Marco Polo, o viajante italiano que percorreu a Rota da Seda no século XIII, considerou-a a “mais bela e elegante cidade do mundo”.

Angola é, tradicionalmente, um dos principais fornecedores de petróleo da China. Depois de a guerra civil angolana ter terminado, em 2002, a China tornou-se também um dos principais atores da reconstrução do país, nomeadamente das suas estradas, caminhos-de-ferro e outras infraestruturas.

Mas, volvidos quase dois anos desde que o país asiático encerrou as suas fronteiras devido à pandemia da covid-19, intercâmbios políticos e académicos ou viagens de negócios e turismo continuam suspensos.

Números oficiais de Luanda apontam que havia quase 260 mil chineses a viver em Angola, antes do início da pandemia. Todos os anos, entidades governamentais e empresas chinesas ofereciam também 200 bolsas de estudo a jovens angolanos para estudar na China, um intercâmbio que se encontra também paralisado.

“Angola não é um país muito conhecido aqui na China”, admite Yanick. “Mas, agora, podes perguntar e vão-te dizer que a kizomba vem de Angola, que é algo africano”, realça.

O primeiro festival de kizomba na China ocorreu em 2017, em Xangai, a capital económica do país. As festas rapidamente se alargaram às principais cidades chinesas, contrariando o domínio das danças latinas salsa e bachata nos bares e discotecas do país asiático.

“Julgo que, em todas as grandes cidades da China, a [kizomba] é já bastante popular, incluindo em Pequim, Xangai, Cantão, Shenzhen, Chengdu ou Chongqing”, descreve à Lusa April Meng, que abriu a primeira escola de kizomba, em Xangai, em 2015.

Para a empresária chinesa, a kizomba é uma dança que permite mais “criatividade e interpretação pessoal”.

“Podes interpretar a música como queres”, explica. “Se dançares mais rápido ou devagar, ninguém te vai dizer que estás fora do tempo”, diz.

Para Yanick, os chineses ganharam interesse pela kizomba por ser algo “exótico”.

“É algo novo, totalmente diferente no mundo da dança. É uma conexão, um sentimento, quando estás a dançar kizomba, que não tens quando estás a dançar outras danças”, resume.

A popularidade na China permitiu também à kizomba chegar a outros países da Ásia.

“Outros países asiáticos começaram a ter mais conhecimento sobre a kizomba a partir da China”, aponta o angolano. “Há pessoas que vêm para os festivais desde Singapura, Tailândia ou Indonésia, e depois pegam e transportam para os seus países, convidando os mesmos professores”, descreve.

A proximidade entre os corpos, numa cultura onde a socialização é feita com distanciamento físico – aperto de mão, beijo na cara ou abraço são substituídos pelo aceno ou saudação verbal na China – constitui um desafio inicial para os aprendizes chineses da dança angolana.

“Realmente, não estamos acostumados a tanta proximidade”, nota Meng. “Esse foi um aspeto que me preocupou quando comecei a introduzir a kizomba à comunidade chinesa”.

No entanto, após um “processo gradual” de aproximação, as pessoas passam a “apreciar” o contacto.

“Afinal, acho que ninguém no mundo não gosta de conexão, abraços e essas coisas”, resume Meng.

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