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Já alguma vez sentiu que “não está sozinho”? A ciência explica a sensação
Imagem: depositphotos.com
Em situações de stress intenso, isolamento ou esforço físico extremo, algumas pessoas relatam algo inquietante: a sensação clara de que não estão sozinhas.
Não se trata de uma alucinação clássica, mas de um fenómeno psicológico conhecido como “sensação de presença” — uma experiência que pode ser tão reconfortante quanto assustadora. Foi isso que aconteceu a Luke Robertson em 2015, durante uma expedição solitária de 40 dias até ao Polo Sul.
Duas semanas depois de iniciar a travessia da Antártida, Robertson estava exausto, atrasado e emocionalmente fragilizado. À sua volta havia apenas gelo e neve até onde a vista alcançava. Foi então que algo improvável aconteceu: ao olhar para a esquerda, viu campos verdes. Não uns quaisquer — eram os campos da quinta da sua família, em Aberdeenshire, na Escócia, bem como a casa e o jardim onde cresceu. A visão era simultaneamente reconfortante e perturbadora.
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Sem conseguir ouvir música — o carregador não funcionava — os únicos sons reais eram o deslizar dos esquis no gelo e o vento cortante. Ainda assim, a música-tema de The Flintstones ecoava-lhe na cabeça. Mais do que isso: chegou a “ver” as personagens no horizonte.
Com o passar dos dias, as experiências tornaram-se mais intensas. Ouviu alguém chamar pelo seu nome e ficou convencido de que havia uma pessoa atrás de si. Sempre que se virava, não estava lá ninguém. Ainda assim, a sensação persistia.
Já perto do fim da aventura, exausto e fraco, ouviu uma segunda voz — feminina — que o alertava para não adormecer. Sentiu que essa voz o incentivou a continuar. Poderá mesmo ter-lhe salvado a vida.
Este fenómeno não é novo. O explorador Ernest Shackleton descreveu, em 1916, a sensação de que um “quarto homem” acompanhava o seu grupo durante a travessia final da Geórgia do Sul. Desde então, vários alpinistas do Everest relataram experiências semelhantes, descrevendo estas presenças como autênticos “anjos da guarda”.
Na psicologia, a experiência é conhecida como “sensação de presença” e, por vezes, apelidada de “fator terceiro homem”. O professor Ben Alderson-Day, da Universidade de Durham, estudou o fenómeno e reuniu diversos relatos no livro Presence: The Strange Science and True Stories of the Unseen Other. Segundo o investigador, estas experiências não se limitam a situações extremas.
A sensação de presença não envolve diretamente os cinco sentidos. Não é uma alucinação visual ou auditiva tradicional, nem uma simples ilusão ou fruto da imaginação consciente. Muitas pessoas descrevem-na como uma “densidade no ar” ou uma perceção quase física de que alguém está ali.
Estima-se que até 25% das pessoas com Parkinson relatem esta experiência. Também é comum em episódios de paralisia do sono — quando a pessoa acorda mas não consegue mexer-se — podendo surgir a forte sensação de que alguém está no quarto, ou até sentado sobre o peito.
Metade das experiências associadas à paralisia do sono envolvem presenças descritas como assustadoras.
Os investigadores apontam para uma combinação de fatores físicos e neurológicos. Em ambientes extremos, como grandes altitudes ou regiões polares, a falta de oxigénio pode desencadear alterações cerebrais. O stress físico e psicológico também desempenha um papel importante.
Estudos identificaram padrões invulgares de atividade cerebral em áreas como a junção temporoparietal, a ínsula e o córtex frontoparietal — regiões ligadas à perceção do corpo e à integração sensorial.
Uma das teorias sugere que, em situações de desgaste extremo, o cérebro pode “preencher lacunas” na informação sensorial, criando uma presença que ajuda a enfrentar o isolamento ou o perigo. Outra hipótese baseia-se no chamado processamento preditivo: o cérebro formula suposições sobre o que deveria estar ali quando os estímulos não fazem sentido.
A forma como cada pessoa interpreta a experiência depende muito das suas crenças e emoções. Para alguns, trata-se de um anjo da guarda. Para outros, de um fantasma ou algo ameaçador. Do ponto de vista científico, poderá ser simplesmente o cérebro a tentar proteger-nos.
Alderson-Day defende que falar mais abertamente sobre estas experiências pode ajudar a reduzir o medo associado a elas — especialmente entre pessoas com psicose ou doenças neurológicas.
Quanto a Robertson, conseguiu finalmente chegar ao Polo Sul. Quando avistou a estação de investigação, pensou que fosse mais uma ilusão. Mas, desta vez, era real.
Talvez o “visitante invisível” tenha cumprido a sua missão: ajudá-lo a sobreviver.